Cidadania também é para fazer juntos!

CIDADANIA TAMBÉM É PARA FAZER JUNTOS!

Associação é para fazer juntos. O título desta publicação, lançada pelo IEB - Instituto Internacional de Educação do Brasil, no início de dezembro de 2011, já exprime o que será tratado em seus capítulos: que a criação de uma associação deve ser resultado de um processo coletivo e sua atuação deve ser marcada também pela participação efetiva de seus associados.


É o resultado de 10 anos de trabalho com organizações comunitárias e regionais indígenas, quilombolas, de ribeirinhos, agricultores familiares e outros, aprofundando e atualizando o que já foi publicado anteriormente em Gestão de associações no dia-a-dia.

Este blog nasceu como um espaço para troca de conhecimentos e experiências de quem trabalha para o desenvolvimento de organizações comunitárias e outras.

A partir de 2018 passou a ser também um espaço para troca de ideias e experiências de fortalecimento da cidadania exercida no dia-a-dia, partilhando conhecimento e reflexões, produzindo e disseminando informações, participando de debates, dando sugestões, fazendo denúncias, estimulando a participação de mais pessoas na gestão das cidades onde vivem.

Quem se dispuser a publicar aqui suas reflexões e experiências pode enviar para jose.strabeli@gmail.com. Todas as postagens dos materiais enviados serão identificadas com o crédito de seus autores.

É estimulada a reprodução, publicação e uso dos materiais aqui publicados, desde que não seja para fins comerciais, bastando a citação da fonte.

José Strabeli




terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobre águias, galinhas e associações



Há anos atrás perguntei para um coordenador de programa de uma organização porque os coordenadores de programas regionais ainda não lidavam bem com o setor de desenvolvimento das associações comunitárias se, inclusive alguns documentos daquela ONG, definiam que as associações eram estratégicas. Ele respondeu: sabe a “galinha choca”, que gosta de ter os pintinhos todos embaixo de suas asas? Então, se você desenvolver as associações e elas saírem debaixo da asa da “galinha”, ela vai ficar sem ter o que fazer. Um pouco chocado perguntei: então aquela estória de autonomia das associações é tudo conversa? Ele assentiu com um gesto, sem precisar dizer mais nada.

Leonardo Boff narra a fábula da Águia e a Galinha em livro homônimo, publicado pela Editora Vozes, ainda disponível nas livrarias, contada por James Aggrey, político e educador popular de Gana, quando discutiam os caminhos para a libertação do país da colonização inglesa:

Um camponês foi a uma floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora águia fosse e o rei/rainha de todos os pássaros.

Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

- Este pássaro aí não é galinha. É uma águia.

- De fato, disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.

- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

- Já que de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe.

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

- Não, tornou a dizer o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia sempre será uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe.

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês voltou à carga:

- Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

- Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Voou... voou.. até confundir-se com o azul do firmamento...

Acredito ser pertinente nos perguntarmos sobre o resultado do trabalho de desenvolvimento organizacional ou fortalecimento institucional, realizado por várias organizações que apóiam associações e outras formas de organização comunitária. Estamos dando condições para que elas se reconheçam como águias e voem ou estamos contribuindo para que se mantenham como galinhas, limitando-se ao chão e ao que conseguem ciscar nele?

A “superproteção” que vemos nas “galinhas chocas”, em alguns pais e mães, encontramos também na prática de organizações que colocam seus “assessores” dentro das associações comunitárias “para que tudo dê certo”. Já comentei em outras postagens que os dirigentes das associações não aprenderão se não fizerem. Não é verdade que aprendemos também, ou talvez mais, com os erros? Ou isso também é só conversa?

Galinhas não são para sempre. Pais e mães não são para sempre. E o apoio de organizações também não é. Depende da continuidade de financiamentos, da continuidade de técnicos em seus quadros e até mesmo da continuidade de programas e linhas de trabalho. E quando não tem mais, como ficam as associações? Muitas vezes órfãs de suas “galinhas chocas”.

Há também aquelas que apóiam as associações comunitárias mais porque precisam delas para o desenvolvimento de seus programas ou projetos. A necessidade do desenvolvimento das associações comunitárias é mais delas do que dos próprios associados. Nesses casos, costumam investir em “arrumar a casa” ou no máximo desenvolver algumas habilidades de gestão. Fica fora de sua preocupação e investimentos, fortalecer o tecido social, a participação a estruturação da organização nas comunidades.

Quando meus três filhos eram pequenos, levava-os para andar de bicicleta, subir em árvores, correr nas praças. Muitas vezes fiquei com “o coração nas mãos” quando acenavam sorridentes de cima de um brinquedo ou galho de árvore, mas incentivava-os a continuar; minimizava os joelhos ralados em quedas de bicicleta ou corridas na rua. Algumas pessoas me avaliam como frio ou duro por causa disso, mas hoje vejo, feliz, três jovens trilhando seus próprios caminhos cada vez mais com autonomia e soberania e penso não sem orgulho: acho que não estou fazendo um mal trabalho como pai.



Não deveríamos ter o mesmo sentimento ao pensar nas associações que contribuímos com o desenvolvimento organizacional?

No final do ano passado ouvi de um colega de trabalho que, depois de algum tempo de ações de desenvolvimento organizacional, recebeu de uma cooperativa a informação de que agradeciam o apoio que tinham recebido até aquele momento, mas não precisavam mais. Dali para frente conseguiriam caminhar sozinhos. Comentei com ele: parabéns para você e sua equipe. "Quando eu crescer” também quero receber uma informação assim.


Um comentário:

  1. Gostei imensamente do artigo e pensei nos muitos fazeres de conta que existem por aí para justificarem um sem número de atividades que não deixam sequer rastros.

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