Cidadania também é para fazer juntos!

CIDADANIA TAMBÉM É PARA FAZER JUNTOS!

Associação é para fazer juntos. O título desta publicação, lançada pelo IEB - Instituto Internacional de Educação do Brasil, no início de dezembro de 2011, já exprime o que será tratado em seus capítulos: que a criação de uma associação deve ser resultado de um processo coletivo e sua atuação deve ser marcada também pela participação efetiva de seus associados.


É o resultado de 10 anos de trabalho com organizações comunitárias e regionais indígenas, quilombolas, de ribeirinhos, agricultores familiares e outros, aprofundando e atualizando o que já foi publicado anteriormente em Gestão de associações no dia-a-dia.

Este blog nasceu como um espaço para troca de conhecimentos e experiências de quem trabalha para o desenvolvimento de organizações comunitárias e outras.

A partir de 2018 passou a ser também um espaço para troca de ideias e experiências de fortalecimento da cidadania exercida no dia-a-dia, partilhando conhecimento e reflexões, produzindo e disseminando informações, participando de debates, dando sugestões, fazendo denúncias, estimulando a participação de mais pessoas na gestão das cidades onde vivem.

Quem se dispuser a publicar aqui suas reflexões e experiências pode enviar para jose.strabeli@gmail.com. Todas as postagens dos materiais enviados serão identificadas com o crédito de seus autores.

É estimulada a reprodução, publicação e uso dos materiais aqui publicados, desde que não seja para fins comerciais, bastando a citação da fonte.

José Strabeli




sexta-feira, 15 de junho de 2018

Exercer a cidadania no nível municipal: um bom começo!


- E daí, o que podemos fazer??
- Muito boa a sua pergunta. O debate está aberto. É a população da cidade, inclusive os proprietários que não residem aqui, quem deve decidir isso. Mas eu tenho algumas considerações e sugestões. Toda cidade tem 3 agentes fundamentais para o seu desenvolvimento e o bem viver de quem mora nela.
- O primeiro é a Prefeitura, encabeçada pelo prefeito, escolhido pelos eleitores, que é encarregada de arrecadar impostos e taxas e utilizá-los de forma eficiente para atender às necessidades da população. Depois de uma gestão ineficiente (para dizer o menos), que deixou uma dívida maior do que a arrecadação anual, não temos informações claras sobre como tem sido a gestão atual e há reclamações constantes com relação à qualidade dos serviços de saúde, educação, manutenção de vias e outros espaços públicos, transportes, segurança, etc.
- Está tudo ruim. Como reclamar da saúde, etc. Fala, se não tem dinheiro???
- Então, é por isso que é preciso ter maior transparência por parte da Prefeitura e da Câmara Municipal sobre o que está sendo feito com os recursos arrecadados, porque em 2017 a receita foi de pouco mais de R$ 221 milhões. Com despesas de pouco mais de R$ 207 milhões, teve um superávit de mais ou menos R$ 14 milhões. O orçamento para este ano é de quase R$ 195 milhões. Faltam informações objetivas e projeções do quanto seria necessário para resolver os principais problemas da cidade, que tem 57 mil habitantes, e fazer investimentos para sabermos se isso é pouco ou não.
- O segundo agente é a Câmara Municipal, composta por vereadores também escolhidos pelos eleitores, que tem as funções de legislar e fiscalizar o executivo. Para isso, tem como obrigação elaborar e aprovar leis que melhorem o funcionamento e gestão da cidade, além de apreciar os projetos de lei encaminhados pelo executivo; aprovar o orçamento, acompanhar a sua execução e aprovar ou rejeitar as contas apresentadas pelo prefeito, entre outras atribuições. Pelo menos no momento, as atividades de fiscalização do executivo são quase ou completamente nulas: as contas dos últimos anos ainda não foram apreciadas pela Câmara (pelo que me disseram recentemente porque estão "enroscadas" no Tribunal de Contas do Estado); as Comissões Permanentes da Câmara, que têm um papel fundamental na fiscalização e proposição de adequações, ao que tudo indica não estão funcionando e os vereadores indicam individualmente as melhorias reivindicadas pela população ao invés de tratá-las nas Comissões, provavelmente porque assim as obras vão "carimbadas" com seus nomes e rendem votos. A Câmara também pode formar Comissões Especiais ou de Inquérito, mas não há notícias de que tenha acontecido, pelo menos recentemente. Ou seja, fiscalizam praticamente nada. Também legislam quase nada, praticamente se limitando a aprovar todos os projetos de lei encaminhados pelo executivo. Ao mesmo tempo, a Câmara promove cursos, faz convênio e os vereadores vão em busca de recursos para o município com deputados de seus partidos, além de promover eventos pela cidade a fora.
- O terceiro agente é a população, os cidadãos, os verdadeiros donos dos mandatos do prefeito e dos vereadores que, com muitas carências fruto da má gestão há anos por parte do executivo e da omissão ou anuência dos vereadores, em geral têm aplaudido e elogiado o "socorro" que é dado em ações pontuais por intervenção principalmente dos vereadores, mesmo que isso seja um desvio de função. Se nem o prefeito nem os vereadores estão garantindo uma boa gestão da cidade, eu só vejo como caminho a mobilização e organização da população para reagir a isso. Não é só na eleição que somos cidadãos. Cidadania se exerce todo dia.
- Há várias formas da população de organizar, como associações de bairro, sindicatos, organizações da sociedade civil com objetivos sociais, que podem se articular, por exemplo, para reivindicar um Orçamento Participativo onde todos possam opinar sobre as prioridades de investimento; formar um Observatório da Sociedade Civil para monitorar as ações da Prefeitura e da Câmara Municipal, pedir esclarecimentos e, se necessário, tomar providências junto ao Ministério Público e outras instâncias da Justiça; um Fórum Municipal, que reúna o poder público, empresários e organizações da sociedade civil para diagnosticar os problemas a serem resolvidos e planejar ações conjuntas para solucioná-los, com orçamento, cronograma e atribuições de cada parte definidas para que possa ser feito monitoramento por todos.
Ou a sociedade civil toma em suas mãos o destino de nossa cidade ou continuaremos nas mãos de quem toma essa iniciativa. Caso a gente prefira que o comando continue nas mãos de quem está, o resultado é o que sentimos no nosso dia-a-dia e que já foi estudado e exposto por pesquisadores, na nossa cidade e em outras da região:
1. Todos os prefeitos e vereadores têm altos salários;
2. Os servidores públicos municipais têm aumentos de salário sempre no mínimo. “Nunca dá para dar mais” e planos de carreira também não têm;
3. A maioria dos cargos na Prefeitura e na Câmara são definidos por vereadores em cargos de comissão. São cargos políticos para amigos e parentes. Isso precisa ter um fim. É um escândalo em algumas cidades;
4. Processos na Justiça, no Ministério Público, Ação Civil Pública por causa de suspeita de direcionamento em licitações, superfaturamento, descumprimento da lei;
5. As cidades têm problemas com saúde, educação, segurança, infraestrutura...

São vícios de décadas. É isso que o povo das cidades do Brasil não aguenta mais!!
De cada 10 vereadores, 7 estão “sentados no colo do prefeito”, atuam como advogados do prefeito. Isso não pode. Essencialmente, os vereadores têm que fiscalizar o prefeito, os contratos, as ações e não estão fazendo isso.
E tem mais, neste ano tem eleição para deputados estaduais e governador, deputados federais, senadores e presidente da República. Os candidatos a deputado estadual e federal já estão visitando as cidades, prometendo e muitas vezes conseguindo verbas de R$ 100 mil para a saúde, R$ 200 mil para pavimentar ruas, para terem votos.
Migalha é o que estão dando para a população das cidades para continuarem no poder.



domingo, 8 de abril de 2018

Associações e desenvolvimento da cidadania


Já tratamos neste blog algumas vezes que uma associação é, fundamentalmente, a união de pessoas em torno de objetivos comuns, de caráter social, como inclusive estabelece o Código Civil Brasileiro. Também já refletimos várias vezes sobre a necessidade ou não de criar uma organização formal, registrada em cartório e com CNPJ para unir pessoas e objetivos para o desenvolvimento comunitário, garantia de direitos legalmente adquiridos, melhoria das condições de vida e maior participação na gestão comunitária, do município, ou mesmo do estado ou país. Além de organizações formais, foram apresentadas experiências de organizações informais que têm conseguido muitos resultados importantes.

Trabalhei durante 16 anos com ONGs e organizações comunitárias indígenas, quilombolas, de ribeirinhos, pescadores artesanais, artesãos e outros em quase metade dos estados do Brasil: 0s nove da Amazônia, inclusive Mato Grosso e Maranhão, Bahia, Espírito Santo e São Paulo. Desde o final de 2011, quando foi publicado o livro Associação é para fazer juntos, partilhei aqui as experiências de trabalho de desenvolvimento organizacional de associações formais e informais, em 118 postagens.

Em meados de 2016 aposentei pelo sistema previdenciário oficial, depois de 38 anos de contribuição e mantive apenas alguns compromissos já assumidos, até final de 2017, quando deixei definitivamente de atuar profissionalmente como consultor para o desenvolvimento de organizações e projetos comunitários. Por isso as postagens em 2016 diminuíram drasticamente e em 2017 foi feita apenas uma e última postagem, em abril, pelo que peço desculpas aos leitores que me acompanharam durante esses anos. É que eu sempre pensei que se não temos nada de novo para dizer, é melhor ficar em silêncio e, uma vez que as atividades práticas estavam cessando, não iria provocar enfado com teorizações. Não tenho dúvidas de que uma teoria só é realmente boa quando tem sua eficácia testada e aprovada na prática.

Bom, desde que mudei para uma pequena chácara em Itupeva, no interior de São Paulo, em 2008, me sentia em dívida com a cidade, por contribuir com o desenvolvimento comunitário pelo Brasil a fora e não fazer nada na cidade que adotei como minha. O que acontecia é que passava três ou quatro semanas por mês viajando a trabalho e não tinha tempo hábil para qualquer ação local.

Uma vez aposentado e em tempo integral na cidade comecei a pensar e conversar com algumas pessoas sobre o que fazer.

Me lembrei que alguns anos antes tinha simpatizado muito com uma ação experimentada em várias cidades do Brasil, que consistia em deixar livros em lugares públicos como rodoviárias, pontos de ônibus, restaurantes, praças, parques, bancos, padarias ou outro lugar qualquer, para que as pessoas interessadas levassem para se distrair e ter acesso à cultura. Um marcador de livro estimulava a quem pegasse o livro, que lesse e depois deixasse para mais alguém. Também poderia da mesma forma, deixar para outras pessoas os livros que tivessem em casa e não fossem mais ler.

Olhei para a minha pequena estante com falta de espaço para novos livros e resolvi desapegar de publicações literárias, de educação, ecologia e outros assuntos para “deixá-los livres para voar” e que outras pessoas pudessem desfrutar deles como eu já tinha feito antes. Desde dezembro de 2017 já foram deixados pela cidade mais de 80 livros. Quem quiser saber mais detalhes, pode ver em https://www.facebook.com/leveestelivro.itupeva. Apesar de uma certa nostalgia de velhos companheiros, estou feliz de estar partilhando meus livros com outras pessoas que talvez tivessem dificuldade de acesso à cultura de outra forma.

Quis conhecer melhor a história de Itupeva e, consultando a bibliografia e arquivos disponíveis na internet, vi que tinha muito pouca coisa e nenhum trabalho sistemático sobre a sua história. Pensei sobre a importância de fazer isso, mas com pouco conhecimentos na cidade, não sabia por onde começar, até que um amigo na minha lista no facebook publicou que fazia parte de um grupo com esse objetivo. Me ofereci para fazer parte e fui aceito. Estamos fazendo a pesquisa bibliográfica e entrevistas para recuperar uma história que remonta aos povos indígenas que viveram na região, bandeirantes, concessionários de sesmarias, barões do café, imigrantes europeus em especial italianos, migrantes de várias cidades do estado de São Paulo e regiões do Brasil, que fizeram da cidade o que ela é hoje.

Neste grupo, conheci uma pessoa que faz mensalmente uma feira, Leva e Traz, de troca e empréstimo de livros. Sua base são alguns milhares de livros que foram disponibilizados para que fizesse essa atividade. Vendo o objetivo comum que une Leva e Traz com Leve este Livro Itupeva, estamos trabalhando em parceria, um divulgando o trabalho do outro e, quando tem feira, recebo livros em doação, que são distribuídos pelo local com o marcador do Leve este Livro Itupeva e um folheto da Leva e Traz.

Alguns conhecidos dessa pessoa tiveram a iniciativa de implantar, em parceria com a prefeitura municipal, um poste da paz em uma das praças da cidade. Para saber mais sobre essa iniciativa, que é internacional, veja http://www.itu.com.br/cotidiano/noticia/simbolo-internacional-poste-da-paz-e-inaugurado-em-itu-20151029 ou qualquer outra das milhões de notícias que pode encontrar através do Google. 

Está sendo viabilizada uma proposta de revitalização da Praça da Bíblia, onde o poste foi instalado, transformando-a em uma praça de cultura e lazer, aberta à toda a população da cidade e turistas.

A atual gestão do município, iniciada em 2017, herdou uma dívida superior à arrecadação anual. O atual prefeito se queixa que essa dívida tem limitado a sua ação para o desenvolvimento da cidade e muitas pessoas se queixam, principalmente no facebook, da falta de qualidade dos serviços prestados pela administração municipal. Seria bem-vindo um Observatório da Sociedade Civil para acompanhar e fiscalizar a elaboração e execução do orçamento, experiência já adotada em várias cidades brasileiras. Isso poderia levar a adoção de um Orçamento Participativo, também uma experiência já feita em vários lugares. Um Fórum Social Municipal, que congregue organizações de bairro e outras da cidade, empresários e poder público, experiência também já adotada em muitas cidades, poderia contribuir para a definição de prioridades de investimento e solução de problemas do município.

Cabe ressaltar que todas essas ações são e poderão continuar a ser feitas por pessoas que têm a sua profissão ou são aposentadas como eu e que queiram disponibilizar parte do seu tempo para ações de interesse coletivo. Não envolvem, necessariamente, trabalho remunerado ou a formalização, com o ônus da burocracia e despesas que acompanham o registro, de uma associação.

Por isso, a partir de agora, esse blog passará a relatar experiências de desenvolvimento da cidadania, que podem inspirar a implementação de experiência similares em qualquer lugar do Brasil ou mesmo de outros países. É preciso nos apropriarmos e nos responsabilizarmos pelo futuro da nossa cidade, estado ou país. Afinal, Associação, formal ou informal; no campo, na cidade ou na floresta; nos sítios, terras indígenas ou quilombolas; na beira-rio ou beira-mar, é para fazer juntos.


Falo também em outros países porque a internet rompeu fronteiras e, nesses sete anos, pessoas de 99 nações têm visualizado as experiências aqui publicadas.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Protagonismo, empoderamento e empodimento

Escrito “a quatro mãos” com
Patrícia Andrade Machado


O Brasil tem, desde o início da ocupação europeia, um histórico de discriminação, inicialmente com relação aos índios, que não correspondiam aos padrões europeus de uso dos recursos naturais, formas de organização e cultura, depois com os negros, cuja escravização viabilizou economicamente a colonização e quase todo o período imperial e ao longo de cinco séculos com todos os povos e comunidades tradicionais, além dos pobres, das mulheres e tantos outros. Não é só no Brasil, claro, mas isso não justifica.

É uma pena, porque uma das grandes riquezas do país é a diversidade social, cultural e econômica que esses povos e comunidades oferecem a todos nós.

Como reação a essa discriminação, nas últimas décadas tem crescido um movimento de protagonismo e empoderamento dos negros, mulheres, comunidades da periferia das cidades, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais entre outros. Organizações da sociedade civil têm incentivado esse movimento e esse discurso tem sido apropriado por lideranças desses povos e comunidades.

Fico às vezes pensando se esse é um bom caminho. Protagonista é o primeiro lutador ou competidor, na raiz latina do termo, “protos” – principal, primeiro, e de “agonistes” – lutador, competidor. É, mais contemporaneamente, o personagem principal de uma peça de teatro, filme ou novela. Tenho ouvido falar muito do protagonismo indígena nas aldeias e com as associações com quem tenho trabalhado. E, quando trabalhei com associações de mulheres indígenas, elas é que queriam ser protagonistas. Também falam do protagonismo dos negros e aí por diante. Será possível todos serem os primeiros ou principais? Será que tem gente e organizações “vendendo o que não podem entregar”?

Empoderamento, uma tradução da expressão em inglês, empowerment, significa, como já publicado neste blog em janeiro de 2016, uma ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais. Essa consciência ultrapassa a tomada de iniciativa individual de conhecimento e superação de uma realidade em que se encontra. O empoderamento possibilita a aquisição da emancipação individual e também da consciência coletiva necessária para a superação da dependência social e dominação política. O empoderamento devolve poder e dignidade a quem desejar o estatuto de cidadania, e principalmente a liberdade de decidir e controlar seu próprio destino com responsabilidade e respeito ao outro. No entanto, na prática, esse conceito tem sido entendido mais como adquirir ou atribuir poder a alguém. Poder é o direito de deliberar, agir, mandar e, dependendo do contexto, exercer sua autoridade, soberania, a posse de um domínio, da influência ou da força.

Se temos no país uma grande diversidade de histórias, culturas, organizações, com suas formas próprias de relação com a natureza e uso dos recursos naturais, não deveríamos todos direcionar nossos esforços para o “bem viver” de todas?

Se discriminar é distinguir, separar, afastar, não será também discriminação quando destacamos que determinado grupo, comunidade ou povo deve ter protagonismo ou empoderamento? Vamos considerar uma região onde convivem de alguma maneira mulheres e homens, negros, índios e brancos, por exemplo. Se cada um deles for estimulado a ser o protagonista, o principal e a ter o poder, ser empoderado, não estaria sendo criada uma disputa entre eles ao invés de estimular a luta solidária pelos direitos de todos?

Há quem fale em “discriminação positiva”, quando são tomadas medidas que favorecem os que têm sido discriminados. Será mesmo possível que alguma discriminação seja positiva? Discriminar é o melhor caminho para acabar com a discriminação?

Dada a sua diversidade e às relações históricas que tem feito do Brasil o que ele é, a questão não é tanto étnica, de gênero, faixa etária ou outra, mas dos direitos. Todos têm o direito de ter os seus direitos conquistados e garantidos.

No final do ano passado, vi em um programa de televisão o relato da experiência de mulheres do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais. Região de clima semiárido, que oferece condições bastante difíceis para as famílias, os maridos e filhos adultos migram temporariamente para outras regiões do Brasil onde encontram trabalho, deixando suas esposas e mães. Estas vivenciam condições difíceis para se manter até o retorno dos maridos e filhos.

Detentoras de uma rica arte em cerâmica, essas mulheres foram estimuladas a produzir e comercializar seus produtos como forma de geração de renda para melhorar suas condições de vida enquanto os homens da família buscavam renda com seu trabalho em outras regiões. Também abriram as suas casas para receber turistas que, além de conhecer seus produtos artesanais, passaram a conhecer também seu modo de vida, culinária, etc. “O dinheiro levado pelos visitantes impacta toda a comunidade, muito além das artesãs. Ele circula na mão de quem oferece a hospedagem, cozinha o almoço, assa o bolo para o café da tarde, faz os doces para a sobremesa e assim por diante”Daí deram origem ao conceito de “empodimento”, uma versão mineira do empoderamento, com o foco em “nóis pode”.

A tomada de consciência, levada à prática, de que “nóis pode” ter nossos saberes e habilidades reconhecidos e valorizados; “nóis pode” trabalhar juntos, gerar renda e melhorar nossas condições de vida; “nóis pode” conquistar e garantir os nossos direitos, gera um grande ganho de liberdade e promoção da dignidade de todos os envolvidos e ninguém se coloca à frente nem exclui ninguém. Pelo contrário, agrega pessoas e organizações que queiram somar e indica um caminho alternativo e possível que pode ser disseminado para outras comunidades, formando uma rede capaz de tornar o Brasil um lugar do “bem viver” para todos nós. Desde então passei a pensar que empodimento parece bem melhor do que protagonismo ou empoderamento.

“O barro ensina as pessoas que têm boas ideias. Quando o barro é ruim, não dá liga. Quando a ideia é ruim, não dá liga também.” É o que diz Dona Rosa, do Vale do Jequitinhonha.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Associação é a forma mais adequada para a organização de povos e comunidades tradicionais?

Desde que comecei a trabalhar com o desenvolvimento de organizações comunitárias e regionais de povos e comunidades tradicionais, há 15 anos, escuto de lideranças comunitárias e técnicos de organizações privadas e governamentais que as associações são burocráticas demais para que indígenas, quilombolas, agricultores familiares, extrativistas, pescadores e outros possam lidar. Principalmente indígenas e quem trabalha com eles argumentam que associação é muito distante de sua cultura e que eles têm dificuldades para entender como funcionam; cuidar de processos de gestão de recursos que não combinam com as suas formas tradicionais de lidar com o dinheiro e outros bens e que, ter um presidente, que pode tomar decisões e assinar documentos sozinho dá a elas um caráter muito centralizador, principalmente para que tem tradicionalmente processos mais horizontais de decisão.

Dezenas de milhares de associações comunitárias, regionais e étnicas foram fundadas no Brasil, principalmente a partir das décadas de 1980 e 1990. A motivação principal para a maior parte delas é acessar recursos de projetos. Muitas também foram motivadas pela necessidade de se organizarem e terem representatividade, tanto na sociedade civil quanto diante do governo, para ter apoio e lutar por seus direitos e fazer suas reivindicações.

No entanto, a grande maioria delas nunca acessou recursos de projetos. Outras conseguiram o primeiro financiamento, que motivou a sua fundação e nunca mais. Outras conseguem pequenos financiamentos pontuais. Falta capacitação técnica e meios para acessar editais, elaborar os projetos e negociar sua contratação, além de haver muito mais associações apresentando propostas do que recursos para financiá-las. Uma importante fundação avisa já em seu site que apenas por volta de 1% das propostas apresentadas conseguem financiamento. Outra recebeu em 2015 mais de 1.500 projetos e só tinha recursos para financiar por volta de 50. E assim vai.

Não consigo entender porque seria necessário um povo ou comunidade ter uma organização formal para ter representatividade política. Não tenho dúvidas que os órgãos governamentais e, principalmente as organizações privadas, deveriam reconhecer as inúmeras formas tradicionais de organização neste país pluricultural e pluriétnico. Algumas iniciativas, na contramão desse entendimento estreito, têm se mostrado experiências muito interessantes, como o Parlamento Suruí e o Conselho de Caciques do Oiapoque, já tratados neste blog. Eles são organizações informais, com um Regimento Interno elaborado de forma participativa e com grande legitimidade junto àqueles que representam e àqueles com quem negociam.

Resta ainda a questão do acesso a recursos que, mesmo cada vez menos disponíveis, dada a disponibilidade decrescente, principalmente por parte das agências de cooperação internacional e o aumento do número de associações solicitantes, ainda têm beneficiado algumas associações. Estas, que podem ser consideradas privilegiadas, contam com organizações da sociedade civil que as “assessoram” para a elaboração de projetos, gestão dos recursos, organização das atividades e elaboração de relatórios financeiros e de atividades. Ou fazem isso completamente ou redigem a partir das ideias e informações das lideranças, dada a dificuldade que as mesmas têm para fazer sozinhas por causa do pouco conhecimento técnico agravado pela pouca escolaridade ou de má qualidade, o que lamentavelmente é muito comum no Brasil. Tanto as lideranças como os técnicos são unânimes em afirmar que não seria possível cumprir esses compromissos sem esse “apoio”. Os financiadores também reconhecem e compreendem isso.

Um grande esforço em termos de pessoal e recursos tem sido dispendido na busca de capacitação dos administradores dessas associações para a gestão das mesmas, através de cursos, oficinas, consultorias e publicações. Mesmo assim, até associações mais estruturadas e com 20 ou 30 anos de história, caem facilmente na inadimplência com financiadores e órgãos governamentais sem a ação dessas organizações.

O foco de ação de quase ou todas essas associações é a reinvindicação de políticas públicas, controle social das mesmas e conquista de direitos assegurados por lei, ou seja, uma atuação política. Algumas se dedicam também a atividades econômicas sustentáveis, em geral com escala menor do que o necessário para a sua sustentabilidade financeira e, também nesses casos, dependentes de assessoria técnica e/ou para gestão.

Há também o problema da rotatividade dos dirigentes e funcionários, no caso daquelas que conseguem recursos para ter funcionários. Trocas de diretoria, muitas vezes por pessoas sem nenhuma experiência administrativa, levam a um novo processo de capacitação ou a uma crise institucional.

Penso que, se mesmo depois de duas ou três décadas de tentativas, sem conseguir progressos significativos e duradouros, essa situação permanece, não está na hora de pensar novas formas de organização para os povos e comunidades tradicionais que atendam a seus objetivos e também das organizações que as apoiam e dos financiadores interessados em sua proteção e bem-estar?

Por exemplo, se as organizações que apoiam essas associações comunitárias, na verdade protagonizam a quase totalidade dos processos, porque não voltam a assumir a captação e gestão dos recursos e a assistência técnica necessária como faziam antes de se disseminar a ideia de que os povos e comunidades tradicionais tinham que ser autônomos e protagonistas, com suas próprias associações, projetos e gestão dos mesmos? Ora, e isso tem acontecido, já que a presença ativa das organizações que, inclusive estimularam e orientaram a sua fundação, é permanentemente necessária? Se voltassem a assumir esse papel, as lideranças comunitárias ficariam livres desse ônus gerencial e disponíveis para as articulações políticas e reivindicações de seus direitos, que é de fato o que pretendem fazer.

Acho até engraçado e, ao mesmo tempo trágico, quando ouço de dirigentes e técnicos de ONGs, que os índios ou outros, precisam ter seus próprios administradores, técnicos e até motoristas, para serem autônomos, além de pessoas que demonstram preocupação quando uma associação indígena contrata um branco para a gestão ou processos específicos de administração. Alguém questiona se uma ONG “de branco” tem funcionários indígenas, asiáticos ou negros? Alguém questiona a autonomia de um empresário por causa da etnia de seus diretores, gerentes ou funcionários? Alguém é capaz de fazer a manutenção de sua casa, de seu carro, cuidar da própria saúde sozinho ou apenas com a colaboração dos membros de sua família? E porque não se questiona a autonomia e protagonismo de quem contrata pessoas para fazer aquilo que não sabe fazer?

Vejo que a autonomia e protagonismo não está em saber fazer tudo o que se precisa, mas em ter em suas mãos o poder de decisão sobre o que é preciso fazer, quando, de que forma e por quem deverá ser feito.

20 ou 30 anos é bastante tempo e, se as organizações comunitárias e regionais de povos e comunidades tradicionais, durante esse tempo, se desenvolveram muito menos que as organizações que as apoiam, para mim fica claro que associação formal não tem se mostrado uma forma adequada de organização.


Não vejo que o paradigma de que é preciso ter uma associação para se organizar continua válido. É preciso “pensar fora da casinha” e criar novos arranjos institucionais entre os atores para atingir os resultados esperados.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Não existem milagres para facilitar o desenvolvimento comunitário e de suas organizações

É preciso e está mais do que na hora de consultores, técnicos, suas organizações públicas e privadas, além de financiadores se convencerem definitivamente disso.

Durante uma entrevista rápida e informal a uma pessoa a quem fui entregar o meu currículo, por indicação de uma amiga comum, foi comentado: “Ela me disse que você faz até chover.” Achei isso lisonjeiro e um tanto engraçado. Respondi que a nossa amiga era muito generosa comigo. Eu não faço milagres nem mágicas. Apenas me dedico ao desenvolvimento comunitário e de suas organizações, porque gosto muito desse trabalho, e procuro fazer o melhor consigo.

Ainda hoje é frequentemente vendida a ideia para as comunidades de que se fundarem uma associação receberão muito dinheiro de projetos. Já foi tratado em postagens anteriores neste blog que “A ‘corrida do ouro’ se mostrou enganosa para a maioria das associações que foram criadas para isso. Muitas delas nunca conseguiram ter um projeto aprovado e outras tantas tiveram um ou dois e depois não mais. Ao mesmo tempo, sem condições de pagar um contador, com pouca ou nenhuma habilidade para a gestão financeira e administrativa e sem terem sido preparadas para isso pelos ‘seus criadores’, as associações ficam inoperantes e na inadimplência. Isso sem falar daquelas que, sem o devido preparo, assumiram projetos de grande porte, não executaram corretamente as atividades e o orçamento e, impossibilitadas de prestar contas ou tendo a mesma rejeitada pelo financiador, foram deixadas de lado ou tiveram seus dirigentes responsabilizados judicialmente.”

Milagres e mágicas também estão no imaginário de muitos técnicos: A ideia da associação como panaceia cria expectativas que vão muito além de suas possibilidades. É como se uma associação tivesse vida própria e resolvesse por si só os problemas sem depender daqueles que fazem parte dela. Uma das motivações que já ouvi é que ‘a comunidade é desorganizada. Com a associação vai se organizar melhor’”. Ora, a organização comunitária é a base para a organização da associação. Se a comunidade não está bem organizada é preciso que seja feito um trabalho de fortalecimento comunitário para que se organize melhor. Só depois disso é possível pensar em fundar uma associação, se houver a necessidade de uma organização formal para atingir os objetivos a que a comunidade se propõe. Caso contrário, as fragilidades da organização comunitária se refletirão também na associação.

Já ouvi também que “há conflitos e disputa de liderança. Uma associação ajudará a resolver isso”. Sendo uma organização da comunidade, integrada e dirigida pelas mesmas pessoas, os conflitos e disputas de poder irão para a associação também. Poderão até mesmo ficar mais acirrados, uma vez que seus dirigentes terão um 'poder legal', conferido pela organização formal. Os conflitos poderão também crescer na proporção da disponibilidade de recursos, que levam à distribuição de benefícios, além da contratação de pessoas com salários ou ajuda de custo.

“Como técnico trabalhando com aquela comunidade sou muito demandado a resolver problemas burocráticos ou políticos dela. São muito dependentes. Com uma associação terão mais autonomia.” Respondi que era um grande engano. Autonomia se conquista no dia a dia. Os técnicos têm o grande papel de facilitar esse processo. Ir fazendo junto e cada vez mais ceder espaço até que as capacidades necessárias sejam desenvolvidas e as pessoas consigam fazer as coisas sozinhas. Esse trabalho educativo jamais será feito “magicamente ou milagrosamente” pela simples criação de uma organização formal. “O que vai acontecer é que você vai arrumar mais demandas, para resolver as questões burocráticas e outras da associação.”

Recentemente recebi a seguinte mensagem: “Olá, estamos criando uma associação em minha comunidade e seu blog vem sendo de bastante ajuda para a nossa discussão. Este ponto especificamente é um dos mais problemáticos, tendo em vista que as organizações anteriores existentes por aqui fracassaram pelo caráter centralizador dos presidentes e pela cultura dos associados de que o presidente deve arcar com todas as obrigações da entidade.
Por essa razão, estamos propondo um modelo de administração horizontal, sem a figura do presidente (um Conselho Executivo com 11 membros). No entanto, embora não haja um impedimento legal para esse modelo, encontramos algumas dificuldades práticas, que vão das dúvidas em relação à representação institucional da entidade até à resistência do próprio cartório em realizar o registro de um estatuto que, ao invés de ser assinado por um presidente, é assinado por "Membros do Conselho Executivo". Enfim, em face dessas dificuldades, que soluções poderíamos adotar?”

Respondi que “Uma associação precisa ter um representante legal, necessariamente UMA pessoa física. Nas associações que adotam um Conselho Diretor ou Conselho Executivo, os membros do conselho elege entre si uma pessoa que terá o título de presidente do conselho ou outro que se queira dar e este assinará os documentos legais da associação, tanto diante dos órgãos governamentais como contratos, convênios, etc. Não tem como escapar disso.

“É importante termos claro que uma associação só será horizontal quando os associados participarem efetivamente de todas as decisões e ações, desde o diagnóstico até a avaliação, passando pelo planejamento, execução, monitoramento, entre outras.

“Isso só se resolve com muita conversa e experimentação no dia a dia da associação. Não tem como resolver isso burocraticamente.”

Fiquei muito esperançoso em saber há algum tempo que nem todas as pessoas que trabalham com comunidades abandonaram a educação popular, idealizada por Paulo Freire há décadas, como algo do passado.

Segundo Cristhiane da Graça Amâncio em seu artigo “Educação Popular e Intervenção Comunitária: Contribuições para a reflexão sobre empoderamento”, quando falamos de participação social, valorização do conhecimento popular e alternativas pedagógicas que promovam a emancipação de sujeitos críticos, estamos tratando de educação popular: “O processo educativo com o grupo ou comunidade deverá ser construído em conjunto por todos os atores envolvidos partindo de sua realidade, como se relacionam com ela, suas necessidades, suas capacidades, porque não existe metodologias de desenvolvimento local e sim metodologias que possam apoiar a tomada de decisão, de reflexão e fortalecer os laços comunitários. Na perspectiva da educação popular, todo interventor assume um papel de fato educativo onde os sujeitos populares não são objetos de sua intervenção. Eles são enxergados como agentes de mudança tal como esse interventor.

“É preciso identificar grupos com interesses comuns, orientar a comunidade na identificação dos problemas e promover a organização inicial do grupo, que por conseguinte tem um papel totalmente ativo, diagnosticando e estabelecendo meios para solucionar os problemas bem como suas causas.”

O papel do mediador ou do educador, de acordo com Paulo Freire, será o de “dar força e jeito para que esses grupos populares transformem de fato o dia de amanhã”, tem o papel de instigador com uma contribuição fundamental a dar, estimulando a autoconfiança do grupo e dando-lhe subsídios para adquirir autonomia, conhecimento e consequentemente poder de contraposição. Círculos de reflexão vão propiciar que as pessoas se reúnam e reflitam coletivamente sobre seus problemas e suas histórias individuais permitindo que sejam tomadas decisões coletivas, uma postura coletiva. Devem levar à recuperação da autoestima para romperem com formas antigas de relação de dependência e terem consciência da capacidade que possuem de transformar sua realidade.

Em outra postagem, já disse que “Entendo que as associações têm três dimensões fundamentais:

“1. Comunitária: a associação é uma organização da comunidade, foi fundada porque a comunidade precisava dessa ferramenta para algumas de suas demandas. A associação precisa da organização comunitária para manter sua capacidade de atuação. Conversar com os velhos, descobrir e valorizar talentos, organizar grupos de trabalho, fazer diagnóstico e planejamento, monitorar e avaliar juntos, atingir os objetivos a que se propôs é o que vai manter e fortalecer a razão da sua existência. É na comunidade que está a sua missão.

“2. Política: Fortalecer a articulação e a mobilização da comunidade, lutar por seus direitos, reivindicar e participar do controle social de políticas públicas, fortalecer a sua articulação com organizações similares,
contribuindo para o movimento regional, nacional ou internacional é contribuir para a construção de uma cidadania efetiva.

“3. Gerencial: Exigências legais cumpridas, procedimentos administrativos bem definidos, as boas práticas de gestão incorporadas e as rotinas administrativas e burocráticas fazendo parte do dia a dia da associação. Não deixando acumular e tornando-as rotineiras, essas tarefas exigirão menos tempo e esforço de uma só vez. Se associação é ferramenta de trabalho, é preciso que esteja ‘bem afiada e funcionando bem’ para que possa nos servir para o trabalho que necessitamos fazer.”

Se a dimensão comunitária tem sido bastante esquecida, a gerencial também tem sido muitas vezes negligenciada, apesar da captação de recursos através de projetos ser o foco privilegiado. Durante uma oficina sobre gestão de associações para dirigentes e lideranças comunitárias, ao falar sobre as exigências legais e as boas práticas de gestão, o técnico que trabalhava com eles me perguntou se eu não estava sendo “mais real do que o rei” e eu respondi que não, se não fizesse isso a associação poderia enfrentar sérias dificuldades.

Em outra oficina sobre gestão, para outra associação, que estava esperando a aprovação de um projeto enviado para um órgão governamental, ao tratar da contabilidade e envio de declarações e informações aos órgãos oficiais, me disseram que não tinham um contador contratado, recorreram algumas vezes para o envio da declaração de imposto de renda,  mas estavam devendo algumas e tinham multas para pagar; nunca tinham feito a escrituração fiscal, nem cumprido com as demais obrigações, cadastro na Caixa Econômica Federal acreditavam que nem tinham. Tive que dizer para eles que, se o projeto que haviam enviado com muito esforço e contribuição de várias organizações parceiras fosse aprovado não conseguiriam assinar o contrato porque não teriam nenhuma das Certidões Negativas de Débito para apresentar, conforme eles sabiam que seria exigido. Disse que “era como se abrissem uma nova área para roça, destocassem, limpassem e, na hora de plantar descobrissem que a enxada estava sem cabo, não poderiam plantar e ficariam sem comida pelo próximo ano.” O presidente da associação completou: “E o pior, é que nem dá para tirar um cabo no mato. É preciso ser feito por um marceneiro especializado na cidade.”

Eles saíram tão preocupados depois dessa conversa no final do dia que na manhã seguinte eu pedi desculpas pelas más notícias, mas não poderia deixar de dizer para eles o que precisava ser dito. Um dos dirigentes respondeu que eu não tinha que me desculpar, que foi importante eles saberem a real situação e como resolvê-la. Ficaram de verificar o valor das multas e dos honorários de um contador para solucionar as pendências para buscarem formas de captar os recursos necessários.

Entendo que não dar o devido valor e atenção a qualquer um desses aspectos e o paternalismo que leva muitos técnicos e suas organizações a “passar a mão na cabeça” das comunidades, elogiando tudo o que fazem, mesmo quando deixam de fazer coisas necessárias, não ajuda em nada no desenvolvimento comunitário e de suas organizações, nem no aprendizado e amadurecimento das pessoas em busca de sua autonomia. Pelo contrário, atrasa esse desenvolvimento. É um engano pensar que eles gostam de ser tratados como crianças ou incapazes de fazer melhor.

O desenvolvimento das comunidades, de suas associações e outros tipos de organização não é uma questão de milagre ou de mágica, mas de dedicação, compromisso, pessoas capacitadas e dispostas e estratégias adequadas, além dos recursos necessários. E dá tempo? Se não tiver pressa, dá!

segunda-feira, 25 de abril de 2016

A associação precisa ter um Regimento Interno?

Essa pergunta já me foi feita muitas vezes, algumas delas logo depois da fundação da associação. Respondo sempre que a associação não precisa ter um Regimento Interno. Não existe nenhuma exigência legal sobre isso.

O Estatuto Social é o instrumento jurídico de constituição da associação. Ele e a Ata de Fundação e Eleição da Diretoria, registrados em cartório, marcam a sua constituição legal. Costumo comparar o Estatuto da associação com a Constituição do país. Ele expressa a vontade dos associados sobre quem faz parte ou pode vir a fazer parte dela, seus objetivos, órgãos de administração e deliberação, constituição e destino do patrimônio, etc. Dessa forma, para a sua elaboração e aprovação em assembleia, deve ser garantida a participação de todos os interessados, para que ele seja o resultado da pactuação e expresse o consenso ou a vontade da maioria dos associados. Durante a existência da associação, será também uma fonte de consultas sempre que houver dúvidas.

No entanto, tenho sugerido que o Estatuto seja “enxuto”, contendo o mínimo exigido pela legislação, uma vez que seu registro em cartório implica em custos financeiros, o que acontece também quando são exigidas cópias do mesmo para alguma atividade da associação, como abertura de conta bancária, assinatura de contratos, etc. Também não considero saudável criar muitas normas no momento em que a fundação da associação está sendo decidida, para que ela não nasça burocrática demais.  O detalhamento deve ser feito no Regimento Interno, cuja vigência exige apenas a aprovação da Assembleia Geral e não costuma ser solicitado em procedimentos burocráticos. É, como diz o próprio nome, um documento interno. Sempre aconselho que ele seja elaborado quando a associação já está funcionando e começam a ter dúvidas de como encaminhar determinados procedimentos ou tomar certas decisões.

Uma das associações com quem tenho trabalhado ultimamente foi fundada há pouco mais de um ano. No decorrer desse período, os coordenadores tiveram dúvidas em vários momentos e me perguntaram como resolver. Algumas delas puderam ser respondidas diretamente consultando o Estatuto. Outras não haviam sido definidas nele. Assim foi surgindo a necessidade de elaboração de um Regimento Interno, que é um detalhamento do que está disposto no Estatuto.

Neste mês nos reunimos para elaborar uma proposta de Regimento Interno. Participaram 28 pessoas entre coordenadores, conselheiros e demais associados. Comecei perguntando quais eram as dúvidas que tiveram neste primeiro ano de funcionamento da associação e que não puderam resolver consultando o Estatuto. Os relatos foram sendo anotados e expostos com um projetor multimídia para que todos pudessem acompanhar em tempo real.

Sobre cada um dos aspectos apontados inicialmente e também para os que foram surgindo durante os dois dias de trabalho, foi discutida a melhor regulamentação. Com alguns regimentos de outras associações com quem já tinha trabalhado, fui dando sugestões de redação que eram aceitas, ajustadas ou rejeitadas. Não podemos esquecer que cada norma ou procedimento ali colocadas deve ser fruto de uma pactuação entre os associados e deve ser condizente com aquela associação específica, com as especificidades daquelas comunidades, tamanho e complexidade de sua estrutura, etc. O Estatuto deve ser sempre consultado durante esse processo porque é ocioso repetir o que já está claro no Estatuto e, regido por ele, o Regimento Interno não pode ser contraditório nem divergente com o que está disposto nele. Depois de elaborado, será ele também fonte de consulta para quando tiverem dúvidas sobre como proceder.

Dessa forma, o Regimento Interno daquela associação foi tomando forma e corpo, tratando do que deve constar no Edital de Convocação das Assembleias Gerais, como deve ser divulgado para os associados, participação de convidados, procedimentos de eleição e tomada de decisões, como fazer a verificação de quórum para a sua instalação; funcionamento do Conselho Fiscal e como deve ser redigido e apresentado o seu parecer sobre as contas da coordenação; renúncia, destituição e substituição de coordenadores e conselheiros; uso do patrimônio; gestão, controle e prestação de constas dos recursos; contabilidade; contratação de funcionários, prestadores de serviços e estagiários e admissão de voluntários.


Ao final, avaliaram que as dúvidas que haviam tido até aquele momento estavam esclarecidas. Outras coisas, como a criação de departamentos ou setores, seriam deixadas para depois, quando estivessem acontecendo. A proposta de regimento será experimentada por alguns meses, até a próxima Assembleia Geral, para verificarem na prática como as suas disposições funcionam. Nesse período, será corrigida e complementada conforme as necessidades, antes de sua aprovação. Também foi lembrado que, assim como o Estatuto, pode ser reformado sempre que necessário, mesmo depois de aprovado pela Assembleia Geral. Se a vida da comunidade e de sua associação é dinâmica, seus documentos constitutivos e normativos também devem ser.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Diagnóstico e Planejamento Participativos: é fazendo que se aprende!

Desde os primeiros cursos e oficinas que facilitei sobre Diagnóstico e Planejamento Participativos para lideranças comunitárias, me deparei com o dilema apresentado por eles ao final: “foi muito bom aprender as metodologias de diagnóstico, como fazer planejamento, os exercícios que fizemos para aprender praticando, mas não nos sentimos preparados para fazer isso na nossa comunidade. Vocês dão assessoria para nós fazermos pelo menos nas primeiras vezes, até nos sentirmos mais seguros?”


Mesmo em cursos modulares de elaboração de projetos, nos quais os participantes deveriam fazer o diagnóstico em suas comunidades após o módulo presencial sobre o assunto para, depois, elaborarem o projeto no módulo seguinte a partir do planejamento feito nas comunidades, o resultado sempre foi muito menor do que o esperado. Isso nos remete a uma reflexão já feita aqui sobre os limites das atividades formativas ou de capacitação para o desenvolvimento de organizações comunitárias.

No ano passado estive à frente de um programa de desenvolvimento de organizações comunitárias que teve como um de seus resultados a fundação da associação. No mês seguinte, iniciando outra atividade, perguntei aos diretores eleitos o que fariam agora que a associação tinha sido fundada. Responderam que não sabiam. Ponderei com eles que não sabiam porque não tinham planejado junto com os associados o que fariam com “aquela ferramenta que tinham adquirido” e, para planejar, é preciso ter claro quais são os principais problemas a serem resolvidos ou melhorias a serem conquistadas.

Este foi o mote para introduzir a oficina sobre diagnóstico e planejamento que realizaríamos naqueles dias, a primeira das três que compunham um Curso de Elaboração de Projetos. Se não identificamos os problemas e necessidades da comunidade e não planejamos o trabalho que deve ser feito através da associação, não sabemos o que fazer e a associação fica paralisada.

Após esclarecer o conceito e a importância do diagnóstico e da necessidade dele ser participativo, foram apresentadas e exercitadas algumas metodologias de Diagnóstico Rápido Participativo e de realização do planejamento, utilizando uma Matriz. Ficaram de fazer essas atividades nas comunidades antes da oficina seguinte, de elaboração de projetos. O resultado não foi diferente daqueles vistos em oficinas anteriores. No máximo, identificaram algumas atividades potenciais de geração de renda, para as quais precisavam de investimentos.

Neste ano, outro programa com as mesmas comunidades, também previa capacitação neste assunto. Optamos pela capacitação em serviço e, ao invés de mais um curso, facilitei o processo de diagnóstico e planejamento nas comunidades.

Anteriormente já havia pedido às lideranças que escolhessem um grupo de mais ou menos 10 pessoas, formado pelos diretores da associação e mais algumas pessoas que avaliavam que poderiam contribuir diretamente com o processo.

Inicialmente fizemos uma leitura dialogada do capítulo 8 do livro Associação é para fazer juntos: Conhecendo e priorizando os problemas. Depois de destacados os aspectos principais e esclarecidas as dúvidas, decidimos que a Chuva de Ideias seria a metodologia mais adequada para iniciar o diagnóstico.

A comunidade foi reunida e, depois de explicado o objetivo, foi feita a Chuva de Ideias. Como os problemas apresentados estavam focados nas necessidades mais importantes e não eram muito numerosos, não foi preciso fazer a priorização. Decidiram que era possível e importante que a associação tratasse do seu conjunto nos próximos 2 anos, período definido para o planejamento, que coincidia com o restante do mandato da primeira diretoria da associação. Foi aproveitada a oportunidade para que os presentes dessem mais informações sobre cada um dos problemas, o que orientaria melhor o uso das demais metodologias.
 
Com este primeiro passo dado, o grupo voltou a se reunir e definiu que, para aprofundar o conhecimento sobre os problemas levantados com a comunidade, o mais adequado seria fazerem Entrevistas Semiestruturadas. Divididos em grupos por problema, de acordo com a afinidade de cada um, elaboraram as perguntas básicas e saíram pela comunidade entrevistando as pessoas, tomando o cuidado de procurar aqueles que tivessem informações relevantes para dar e sob vários pontos de vista, por exemplo, os enfermeiros, os agentes de saúde, pacientes, lideranças sobre o atendimento à saúde.

As entrevistas foram sistematizadas, algumas por mim, dada a dificuldade de alguns para escrever. Outros grupos já entregaram as entrevistas sistematizadas. O grupo avaliou as informações conseguidas e o que mais precisavam saber para conhecerem bem os problemas para poderem planejar adequadamente como superá-los.

Sobre a necessidade de ter ensino médio nas comunidades para os jovens continuarem seus estudos, verificaram que não tinham muitas informações sobre o processo de reivindicação das comunidades, iniciado há mais ou menos 10 anos. Decidiram fazer um Perfil Histórico e, para isso, foram buscar mais informações com um professor que tem acompanhado de perto esse processo. O perfil foi feito em uma faixa de papel, tendo sido importante também para visualizarem que teve um período de alguns anos em que o governo não se pronunciou e a comunidade também não interferiu para agilizar a conquista. Isso foi refletido depois com a comunidade e decidiram que “não podem ficar parados”.

Sobre a rede de distribuição de água, que não atende a todas as casas, fizeram, mesmo que de forma não muito sistemática, uma Caminhada Transversal para verificar quais as casas tinham torneira e quais não tinham para fazer um Mapeamento Participativo. Nele foi verificado que não eram muitas as casas sem acesso à água e a distância destas para as que tinham não era longa, de forma que não seria exigido um investimento significativo para que todas fossem atendidas.

Também foi feito um mapa sobre a invasão de pescadores, identificando os pontos em que foram vistos recentemente turistas das pousadas próximas pescando em área das comunidades.

Sobre outros problemas tratados, avaliaram que as informações eram suficientes e que outras metodologias não ajudariam a melhorar o conhecimento.

A comunidade foi novamente reunida para validar o diagnóstico. Novas informações foram incorporadas, esclarecendo ainda mais as causas e efeitos daqueles problemas.

Concluído e validado o diagnóstico, foi feito o planejamento. Com uma Matriz de Planejamento exposta com um projetor multimídia, foram utilizados como objetivos gerais os objetivos da associação, constantes em seu Estatuto, demonstrando que as ações de fato contribuiriam para atingir os objetivos que definiram ao fundá-la. Os objetivos específicos foram formulados a partir dos problemas apresentados, definindo a situação que desejavam ter no lugar daquela indesejável que estavam vivendo.

A partir dos objetivos, foram sendo definidos com a intervenção constante de quem desejasse, as atividades que seriam realizadas, os resultados que previam alcançar com elas, os recursos necessários para a sua realização, os responsáveis pela sua organização e execução e as organizações privadas e governamentais que poderiam contribuir de alguma forma como parceiros. Foram escolhidos responsáveis de acordo com o conhecimento, experiência e afinidade com cada tema, o que pode levar a uma futura formação de grupos de trabalho, coordenações ou departamentos dentro da associação.


O Plano de Trabalho será apresentado para apreciação dos associados na próxima assembleia.