terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Reforma de Estatuto e Assembleia como oportunidade de empoderamento

Nos dias 21 a 24 de janeiro estive na Aldeia Cojubim, Terra Indígena Cachoeira Seca, em Altamira-PA para ajudar na elaboração de uma reforma do estatuto e na realização da Assembleia Geral Ordinária da Associação Akanemã que aprovou a reforma, elegeu nova Coordenação Executiva e Conselho Fiscal e planejou as linhas de ação para 2015 e 2016, período do novo mandato da coordenação eleita.


Muitas vezes o Estatuto é visto como uma coisa ininteligível, que só os advogados sabem fazer e entendem, necessária para o registro da associação no cartório, mas que não interessa aos associados. Penso que ele é “a Constituição” da associação definindo, de acordo com a vontade dos associados, os objetivos, a estrutura administrativa, quem pode se associar, deveres e direitos dos associados e como a associação vai funcionar. Sendo assim, os associados devem participar ativamente de sua elaboração ou reforma, expressando a sua vontade, entendendo como deve ser elaborado, quais são as exigências legais e o que ela deixa livre para ser definido pelos associados.

Para facilitar e abreviar o tempo necessário, um grupo de 9 lideranças da Associação Akanemã se reuniu para definir a proposta de reforma do estatuto, que depois foi apresentada, explicada e discutida na Assembleia Geral. Com auxílio de um projetor multimídia, foi exposto o estatuto até então vigente e cada artigo foi lido, explicado e alterado conforme avaliaram ser conveniente para eles. Meu papel como facilitador desse processo foi explicar o que estava escrito, principalmente os termos jurídicos, e provocar a discussão para possíveis alterações, tomando o cuidado para seguir o que é definido no Código Civil e questionando quando necessário a viabilidade do que era proposto.


Sempre que necessário, recorreu-se ao capítulo do Código Civil que trata de associações para verificar o que a legislação exige que conste do estatuto e as outras poucas exigências que faz.

Acredito que, com esse processo, as lideranças e, posteriormente, os associados em geral reunidos na assembleia se apropriaram do estatuto como seu. Foram motivados a olhar para a organização interna da aldeia e se inspirar para a organização da associação. Trocaram a “diretoria”, “presidente”, “tesoureiro” por terem, em especial os dois primeiros, uma carga muito forte de poder, por Coordenação Executiva, Coordenador Geral e Coordenador de Finanças. Destaque especial para a criação do Conselho dos Mais Velhos, com caráter consultivo, dada a importância que essas pessoas têm com seus conhecimentos para a condução da vida da aldeia e, agora, também da associação, substituindo um Conselho de Base que não estava muito claro como era composto nem quais eram as suas atribuições.


Estatuto é uma coisa bastante técnica, com uma estrutura e linguagem específicas, mas isso não significa que “seus mistérios não possam ser desvendados”. Sua estrutura e vários termos técnicos foram explicados e usou-se ao máximo uma linguagem compreensível para eles. Perguntaram sobre a substituição de alguns termos por palavras mais acessíveis, mas em muitos casos uma expressão talvez mais complexa seria necessária para fazer a substituição, então optou-se por explicar o conceito.

O Coordenador Geral, que presidiu a assembleia, foi orientado na elaboração da pauta e na condução da assembleia. Recorreu ao consultor para as atividades que avaliou ser melhor que ele conduzisse. As suas dificuldades foram contornadas ou superadas no decorrer do evento, o que avalio ser mais recomendável do que “alguém de fora que já tem experiência” conduzir.


Não tenho dúvidas de que, se queremos empoderar as lideranças comunitárias com o nosso trabalho, devemos aproveitar os diferentes momentos e oportunidades para que eles assumam o processo, com a orientação que for necessária.

Nenhum comentário:

Postar um comentário