sábado, 31 de janeiro de 2015

Formar, capacitar ou qualificar lideranças comunitárias?

Em vários momentos fui confrontado com esses conceitos ao planejar ou discutir estratégias e metodologias de troca e construção de conhecimentos e práticas para o desenvolvimento comunitário e de suas organizações, assim como o papel do “professor”, “facilitador”, “formador”, “monitor”, entre outros.

Confesso que nunca tive muita paciência para esse debate que sempre me pareceu muito mais de natureza semântica, uma vez que para mim sempre importou a postura que se adota: devemos nos colocar como quem tem alguns conhecimentos e experiências que podem ser importantes para aquelas pessoas e elas também têm; trocamos o que temos e construímos juntos um novo conhecimento.

Já ouvi colegas de trabalho e outros dizerem que o “verdadeiro” conhecimento é dos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e nós é quem temos que aprender com eles. Será que o conhecimento empírico e intuitivo adquirido durante décadas ou séculos em suas comunidades tradicionais é suficiente para atender a todos os desafios que enfrentam? Se assim for, nós não temos papel e o trabalho que desenvolvemos não tem nenhuma importância. Neste caso, devemos buscar algo mais produtivo a que se dedicar, não é?

Implementar o “colonialismo cultural”, acreditando que só o conhecimento técnico-acadêmico importa e as inúmeras experiências e os conhecimentos com elas adquiridos não tem valor porque “não são científicos”, também está longe de ser a melhor opção e já vi experiências desastrosas que desconsideraram a realidade e o conhecimento local.

Vejamos alguns dos significados para os conceitos apontados no título:

Formar: transmitir conhecimentos e práticas em um processo de ensino/aprendizagem.

Capacitar: desenvolver habilidades para que a pessoa esteja apta a desenvolver determinadas atividades.

Qualificar: desenvolver qualidades para o exercício de uma profissão ou atividade.

Tenho me convencido cada vez mais de que não somos capazes de formar, nem capacitar e nem qualificar ninguém, porque a aquisição ou construção de conhecimentos não é um ato passivo. Só a própria pessoa é capaz de aprender.

Acredito que podemos desempenhar um papel importante se nos propusermos a facilitar o caminho de quem deseja adquirir novos conhecimentos e construir novas experiências. Uma metodologia adequada, que parta dos conhecimentos e experiências locais, confrontada com os desafios a serem enfrentados e que agregue de forma acessível novos conhecimentos e práticas pode levar à elaboração de novos conhecimentos próprios daquele grupo e que contribua para atingir os objetivos a que se propõem.

Não somos inúteis nem “salvadores da pátria”, não somos senhores do processo e, por isso, não podemos formar, capacitar ou qualificar lideranças comunitárias, por exemplo, porque aprender ou apreender não depende principalmente de nós, mas dos sujeitos principais que são as pessoas com quem trabalhamos.


Como facilitadores, podemos tornar mais fácil esse caminho ao reunir e transmitir em linguagem mais acessível as diferentes abordagens sobre um determinado assunto, “traduzir conceitos”, orientar pesquisas, partilhar experiências realizadas em diferentes lugares e realidades, moderar debates e auxiliar na síntese entre o conhecimento tradicional e os conhecimentos técnico-acadêmicos.

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