Cidadania também é para fazer juntos!

CIDADANIA TAMBÉM É PARA FAZER JUNTOS!

Associação é para fazer juntos. O título desta publicação, lançada pelo IEB - Instituto Internacional de Educação do Brasil, no início de dezembro de 2011, já exprime o que será tratado em seus capítulos: que a criação de uma associação deve ser resultado de um processo coletivo e sua atuação deve ser marcada também pela participação efetiva de seus associados.


É o resultado de 10 anos de trabalho com organizações comunitárias e regionais indígenas, quilombolas, de ribeirinhos, agricultores familiares e outros, aprofundando e atualizando o que já foi publicado anteriormente em Gestão de associações no dia-a-dia.

Este blog nasceu como um espaço para troca de conhecimentos e experiências de quem trabalha para o desenvolvimento de organizações comunitárias e outras.

A partir de 2018 passou a ser também um espaço para troca de ideias e experiências de fortalecimento da cidadania exercida no dia-a-dia, partilhando conhecimento e reflexões, produzindo e disseminando informações, participando de debates, dando sugestões, fazendo denúncias, estimulando a participação de mais pessoas na gestão das cidades onde vivem.

Quem se dispuser a publicar aqui suas reflexões e experiências pode enviar para jose.strabeli@gmail.com. Todas as postagens dos materiais enviados serão identificadas com o crédito de seus autores.

É estimulada a reprodução, publicação e uso dos materiais aqui publicados, desde que não seja para fins comerciais, bastando a citação da fonte.

José Strabeli




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma ideia publicada é como um pássaro batendo asas. E essa é a graça!

Alguém já escreveu que ao terminar um livro e publicar o autor perde o controle sobre ele e o que as pessoas vão pensar e dizer sobre a sua obra. Porque ela deixa de ser sua e passa a ser dos leitores.

Já relatei aqui algumas vezes como o livro Associação é para fazer juntos tem sido utilizado para leituras dialogadas em cursos e oficinas, treinamento de equipe, leituras e debates em comunidades e peças de teatro amador apresentadas em comunidades e assembleias de associações.

Recentemente fui alegremente surpreendido ao saber que também um livro anterior, Gestão de associações no dia-a-dia, publicado pelo Instituto Socioambiental em 2005, foi utilizado para criação de peça de teatro em 2006, apresentada nas oficinas de capacitação das associações apoiadas pela Brazil Foundation.

Encontrei essa informação na publicação “Brazil, Brasil – 10 anos, uma ideia, muitas histórias”:

Como parte dos encontros de capacitação há a encenação de peças pelo grupo Artistas
de Nós. No repertório da companhia estão seis espetáculos: “Lá no Morro Azul”, “Avaliação, por qual caminho eu vou?”, “Sustentabilidade, do que você precisa?”, “Para que serve uma ONG” e “No Morro Azul moram meus sonhos”, direcionados para os gestores das ONGs, e “O buraco”, voltado para funcionários de empresas que atuam como voluntários em projetos sociais. “A BrazilFoundation percebeu que o teatro poderia ser uma importante ferramenta para facilitar o aprendizado e fixar determinados temas abordados durante os seus cursos de treinamento”, escreve a historiadora Márcia de
Paiva.

A ideia surgiu em 2006, de forma espontânea. Ao se deparar com o livro “Gestão de associações no dia a dia”, de José Strabeli, que falava de um grupo que queria virar uma ONG, Clarissa Worcman, coordenadora de monitoramento da fundação, pensou: “Isso dá uma peça.” Foi além. Quem sabe o espetáculo não poderia servir para abrir as oficinas de capacitação? Afinal, o livro mostrava as dificuldades de se criar uma associação, com toda a burocracia envolvida. Aos poucos, os personagens foram ganhando vida. Já com o texto delineado, Clarissa chamou dois amigos que conheceu quanto estudava teatro – os atores Ricardo Lyra, o Lirinha, e Márcia Alves – e começou a ensaiar. E assim surgiu “Lá no Morro Azul”, que trata de maneira bem-humorada – como todas as peças – dos desafios dos moradores para trabalhar em conjunto e melhorar a vida da comunidade. – Na nossa primeira apresentação, havia poucos gestores, umas dez pessoas. Estávamos muito nervosos e com a sensação: “Será que isso vai funcionar?” – lembra Clarissa. Funcionou.

“As peças abordam, com uma linguagem lúdica, questões do cotidiano na área
social, gerando empatia e identificação com o público, lançando ideias e despertando
debates. O teatro, efetivamente, tornou-se uma ferramenta fundamental na sensibilização
dos gestores, motivando a reflexão e a apropriação dos conhecimentos, de forma
geralmente articulada às oficinas. As apresentações teatrais ‘abrem a cabeça e o
coração das pessoas’ e vêm revelando um efeito pedagógico impressionante”, atestam
Caio Silveira e Ricardo Mello.


As peças incorporam questões comuns às organizações. Para escrever, Clarissa recolhe
material das visitas às comunidades, do monitoramento, da capacitação e do contato
com os gestores. Não raro a plateia se manifesta com risos e frases como “me vi ali”,
“aquela pessoa sou eu”, “é assim mesmo”, “é normal isso acontecer”. – As pessoas se identificam, se sentem representadas – constata ela.

Fiquei muito feliz em saber do uso do livro para elaborar e apresentar “Lá no Morro Azul” para a capacitação de gestores de associações. Isso é um estímulo para que outras pessoas utilizem também do teatro para diferentes processos de desenvolvimento comunitário e organizacional.


É um estímulo também para que as pessoas não guardem suas ideias para si, não as mantenham “engaioladas” pelo direito autoral, mas "deixe-as voar" para que todos possam utilizá-las, apresentá-las de diferentes formas, em diferentes lugares e contextos e elas possam voltar para você de maneiras, muitas vezes, surpreendentes. Essa é a graça!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Toda comunidade precisa ter uma associação?

Com esse título, o primeiro capítulo do livro Associação é para fazer juntos abriu a reunião com moradores das comunidades Ilha da Fazenda e São Francisco, na Volta Grande do Xingu, e as três oficinas sobre associativismo nas aldeias da Terra Indígena Kuruaya, nas margens do Rio Iriri, no interior no Pará, nos dias 24 e 27 a 31 de julho.

Apenas uma das aldeias Kuruaya tem uma associação formalizada há mais de 10 anos, segundo relataram os participantes da oficina. Outra teve o estatuto elaborado há dois anos, mas não foi registrado. Essas aldeias e as demais demonstraram interesse em conhecer mais o que é uma associação, como funciona e como esse tipo de organização poderia ser adequada para resolver seus problemas.

Após a leitura do texto, perguntei como era a organização da comunidade. Em uma delas, disseram que não havia organização nenhuma, querendo dizer que não tinham nenhuma organização formal. Conversando sobre a escolha de lideranças, as atividades que faziam juntos, como compartilhavam o território, foi ficando claro que todas tinham uma forma própria de se organizar, mesmo que em alguns casos essa organização fosse bastante frágil:

“A nossa organização é só entre nós. Fazemos a roça juntos, conversamos algumas coisas como o trabalho, os recursos que precisamos, fazemos reivindicações e outras coisas de interesse como atividades produtivas, educação, saúde, transporte, moradia, energia, definição fundiária.”

“Nós não somos uma comunidade porque não trabalhamos juntos, não pensamos juntos. É só o nome. Não temos nada juntos. É cada um por si.”


Uma comunidade não é definida pelo espaço geográfico, mas pelas relações existentes. Pessoas que moram no mesmo lugar nem sempre formam uma comunidade. Pessoas que moram em lugares diferentes podem formar uma comunidade se compartilharem dos mesmos objetivos e atuarem coletivamente para atingi-los.

Conversamos sobre a organização comunitária, cada uma com as suas características, que surge e se desenvolve junto com a própria comunidade; que as relações construídas por afinidades de objetivos e trabalho coletivo é fundamental para melhorar suas condições de vida; como ela é capaz de resolver muitas de suas necessidades com os próprios meios e como pode aproveitar as oportunidades de parcerias mesmo sem uma organização formal.

Toda comunidade precisa ter uma associação? Não. Apenas aquelas que, no desenvolvimento de suas ações coletivas, sentirem a necessidade de uma organização formal para representá-las legalmente, assinar contratos, movimentar contas bancárias, emitir notas fiscais. Por isso, antes de decidir pela fundação de uma associação, a comunidade deve se perguntar: o que queremos fazer que não conseguimos se não tivermos uma associação?


Uma associação tem obrigações, despesas e não devemos “adquirir uma ferramenta” se ela não tiver utilidade para nós.

Falamos também da associação como ferramenta de organização coletiva. Foi ressaltado que a organização comunitária é a base para o funcionamento da associação; que os diretores  devem ter ao menos habilidade para desempenhar suas funções, devem ser mobilizadores e articuladores das potencialidades dos associados; que o Conselho Fiscal deve ser atuante no seu papel de controle social do uso dos recursos e que a Assembleia Geral deve reunir de fato os associados para pensarem juntos nas estratégias de ação e para avaliarem os resultados alcançados.

Ao final da reunião e cada uma das oficinas, a conclusão foi de que “sem comunidade não tem associação.” Concluíram também que precisam conversar mais e fortalecer a sua organização antes de decidirem pela criação de uma associação. A aldeia que já possui a sua, que está inoperante há anos, decidiu conversar sobre o aprimoramento de seu funcionamento.


Se as associações devem ser devolvidas aos movimentos sociais, fico contente em pensar que há comunidades e lideranças dispostas a isso.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Consultorias devem estar inseridas na estratégia de ação da organização

Tenho trabalhado principalmente como consultor nos últimos sete anos, observado algumas situações e feito reflexões que quero compartilhar com vocês, em especial os colegas de profissão e os dirigentes e coordenadores de programas de organizações da sociedade civil.

Consultores são especialistas em determinadas áreas a quem as organizações recorrem em ocasiões em que não têm profissionais da área em sua equipe. Seu trabalho é, por vezes, pontual e em outras periódico. Por ser um especialista em sua área é comum o consultor ser “revestido de uma aura” de quem vai resolver todos os problemas. É claro que ele acumula conhecimentos e experiências capazes de analisar a situação e propor alternativas, mas sua “passagem” é insuficiente para resolver o que quer que seja se não houver disposição e pessoas com qualificação minimamente suficientes para efetivar as suas orientações e dar continuidade ao que começou. Daí a minha pergunta no título.

As consultorias só surtirão algum efeito se estiverem inseridas na estratégia de ação da organização e se ela tiver pessoas dispostas e qualificadas para dar continuidade ao que foi iniciado. A vontade e efetividade de ações por parte dos dirigentes e da equipe são fundamentais para o sucesso do trabalho. Acredito que a organização que “apostar todas as suas fichas” apenas no consultor, será frustrada em suas expectativas. Acredito também que o consultor que ceder à vaidade de assumir esse papel que, muitas vezes, lhe é atribuído, “estará vendendo o que não tem para entregar”.

Fui contratado há alguns anos para acompanhar a execução financeira de alguns projetos em comunidades, fazer um diagnóstico e propor melhorias para um programa de financiamento. Fiz as visitas, executei o trabalho planejado junto com os dirigentes das associações locais, o diagnóstico com base nos documentos disponíveis, nas conversas e atividades realizadas e apresentei algumas propostas para tornar o programa mais eficiente e eficaz: aprimorar a capacitação dos gestores das organizações comunitárias para a gestão dos projetos, monitorar a execução e aprimorar o sistema de controle a partir das prestações de contas apresentadas. Avaliaram que não havia possibilidade de aprimorar os controles por falta de equipe e também não seria possível aprimorar a capacitação e o monitoramento porque implicaria aumento de custos e de trabalho para uma equipe já reduzida diante da demanda.

Em outra ocasião me convidaram para facilitar o processo de planejamento estratégico de uma organização que, na verdade, estava preocupada porque seu único financiador sinalizou com a interrupção do apoio financeiro e queriam encontrar alternativas de financiamento. Propus primeiro fazer um diagnóstico organizacional para que a organização se conhecesse melhor e enxergasse não só a necessidade de recursos financeiros. Durante o processo um dos integrantes da equipe me disse que tinha uma alternativa de trabalho e estava só esperando a minha resposta se a organização tinha condições de continuar atuando ou se deveria ser extinta pelos associados. Respondi a ele que não estava ali para “decretar a morte” da organização. Isso seria uma decisão deles, se avaliassem que era a melhor alternativa. No entanto, se dissessem que tinha alguma chance e que estavam dispostos a encontrar formas de mantê-la eu apoiaria a decisão tomada, por exemplo, facilitando com eles em outro momento um processo de planejamento estratégico. Um consultor subsidia a direção e a equipe, mas não toma decisão por eles.

Já trabalhei para uma organização com consultorias periódicas para as associações comunitárias que ela apoiava. Discutia as demandas com a equipe local e planejava oficinas ou consultorias para capacitação em serviço. Os técnicos de campo eram encarregados das atividades cotidianas de desenvolvimento daquelas organizações, mas não acompanhavam de perto as atividades que eu realizava. Por várias vezes chamei para participarem. Ficavam para uma conversa ou atividade pontual e depois iam cuidar das outras tantas demandas que tinham. O resultado foi a descontinuidade das ações e o pouco aproveitamento das orientações e sugestões dadas. Muitas vezes acabavam dando orientações divergentes.

Isso, aliás, me lembra de outra situação em que me reuni com um grupo de produtores e conversamos sobre a gestão do capital de giro, a organização da produção, a venda e os controles da entrega dos insumos pela associação, a entrega de produtos, a venda e o pagamento aos produtores, além do controle financeiro das atividades do grupo. A atividade demorou algum tempo para se efetivar e, depois de um ano que tinha iniciado, me chamaram para uma nova consultoria. Deparei-me com uma situação em que a entrega dos insumos não foi feita conforme o combinado, de forma que o capital de giro perdeu-se e os controles não estavam sendo feitos adequadamente. As pessoas da equipe que ficaram encarregadas da continuidade das ações não eram preparadas e não estiveram atentas suficientemente ao que estava sendo combinado e orientado na oficina. Questionei porque não me procuraram antes ou porque não tiraram as dúvidas por e-mail ou telefone antes de fazerem “da forma que encontraram no momento”. Durante essa última consultoria, recente, avaliamos a execução feita até ali, identificamos as fragilidades, aprimoramos os controles e pessoas do grupo foram treinadas para utiliza-los. Insisti para que fosse procurado em caso de qualquer dúvida.

 Algumas consultorias que prestei em oficinas ou capacitações em serviço foram bem sucedidas em si. Quer dizer, as pessoas elogiaram, pediram que eu voltasse para continuar, mas não houve impacto no dia-a-dia da organização. Me lembram o ditado: “Se não sabemos onde queremos chegar, qualquer lugar serve.”

Entender uma consultoria como a solução para todos os problemas não é realista. Costumo falar brincando para quem respira aliviado quando eu chego, achando que todos os problemas serão resolvidos, que consultor não resolve nada, não faz nada, consultor dá consulta, sugere alternativas. Qualquer solução ou avanço no trabalho será conseguido por eles. Em uma organização em que trabalhei, que tinha um programa de capacitação de organizações comunitárias e tinha sua atuação baseada na apresentação de demandas, muitas vezes quando a situação já estava crítica, disse em uma reunião de avaliação e planejamento que “não queremos ser pronto socorro, mas médicos de saúde da família. Não queremos apenas eliminar problemas, mas cuidar para que as associações sejam saudáveis e tenham o mínimo de problemas possível.”

Em primeiro lugar, toda organização precisa de um planejamento, bem pensado e pactuado com todos os atores. É fundamental também que tenha os recursos necessários e uma equipe preparada para realizar as atividades e atingir seus objetivos. Consultores são chamados para atividades eventuais dentro do contexto da estratégia organizacional para os quais a equipe não é suficiente e a organização avalia que não é necessário ter um especialista permanente, o que pode ser facilitar processos de planejamento, para avaliar ou aprimorar o trabalho que vem sendo realizado, para agregar novos conhecimentos e técnicas através de cursos ou oficinas.


O trabalho de um consultor não é permanente e não é, necessariamente, contínuo, mas deve com certeza estar inserido no estratégia da organização. Ele deve conhecer o plano a organização, ter claro qual é a necessidade que motiva a sua contratação, dizer claramente qual é a contribuição que pode dar e trabalhar em harmonia com a equipe. Eu costumo também disponibilizar contatos por telefone, e-mail e redes sociais para tirar dúvidas que venham a ocorrer.

domingo, 13 de julho de 2014

A utilidade da gestão financeira e a necessidade de transparência

Nos dias 07 a 10 de julho facilitei uma Oficina de Administração Financeira para 12 dirigentes e lideranças de de 4 organizações indígenas de Oiapoque, no Amapá, a convite do Iepé Instituto de Pesquisa e Formação Indígena. A proposta era aprimorar os controles e gestão financeira de recursos que essas associações estão movimentando, particularmente a contribuição dos associados.

A oficina começou com o relato dos dirigentes sobre os recursos que a associação está recebendo, em que está sendo utilizado e como está sendo controlado. Uma das associações conta principalmente com a contribuição dos associados, feita mensalmente em um valor definido em assembleia; emite recibo, faz relatório financeiro e presta conta. No último ano 90% dos associados pagaram regularmente. Em outro caso, os associados contribuíram durante alguns anos, mas depois a maioria parou de contribuir. A razão apontada foi que os associados acham que o dinheiro é utilizado para despesas pessoais dos dirigentes. O controle e a prestação de contas não eram feitos regularmente. Outra associação não prestou contas de convênios adequadamente, está inadimplente e devendo documentos para órgãos governamentais.

Foi ressaltado que, neste momento em que os financiamentos externos são cada vez mais escassos e que pouquíssimos financiadores aceitam pagar despesas administrativas, é fundamental a associação contar com a contribuição financeira dos associados e com outras formas próprias de captação de recursos para garantir o seu funcionamento básico. Para ter sucesso nisso, é preciso que os administradores sejam transparentes no uso, comprovação e prestação de contas dos recursos recebidos.

Foi demonstrado quais são os comprovantes de despesas válidos contabilmente: nota fiscal para compra de materiais, equipamentos, refeições, etc.; holerite para o pagamento de funcionários com registro em carteira; RPA - Recibo de Pagamento a Autônomo para pagamento de prestadores de serviços; Fatura de água, luz, telefone, internet; o próprio bilhete para passagens de ônibus, barco, avião e recibos de taxi. Os recibos com formulário vendido em papelaria ou outros só são aceitos em casos especiais, quando nenhum dos outros comprovantes é possível como, por exemplo, na compra de alimentos ou prestação de serviços na aldeia. As receitas também devem ser comprovadas com recibos que contenham o valor, tipo de contribuição ou doação, nome e CPF do doador, data e assinatura. Pra melhorar o controle é importante que os recibos sejam numerados. A base para um bom controle financeiro é ter comprovantes adequados.

A contratação de um contador é necessária para fazer a escrituração da movimentação financeira e alterações do patrimônio, enviar as declarações e informações aos órgãos governamentais e orientar os diretores em suas dúvidas e dificuldades para atender às exigências legais.

Foi disponibilizado um modelo de planilha eletrônica para a elaboração de relatórios financeiros. Divididos em grupos, os participantes treinaram a elaboração de Plano de Contas, o lançamento de receitas e despesas e foram informados como fazer e a importância da conciliação bancária. Foi destacado que o relatório financeiro serve não só para o registro da movimentação dos recursos, mas também é uma ferramenta para a gestão. Analisando os dados consolidados no resumo do relatório, os dirigentes podem ter uma visão mais clara sobre a movimentação e tomar providências necessárias para manter a sustentabilidade financeira da associação. Serve também para a análise do Conselho Fiscal e a prestação de contas para os associados.

O Conselho Fiscal deve se reunir regularmente, conforme definido no estatuto, para analisar as contas e emitir seu parecer para a Assembleia Geral. Nela, a diretoria deve apresentar de forma clara os recursos recebidos e em que foram gastos e em seguida, o conselho deve apresentar seu parecer para que a assembleia possa deliberar sobre a aprovação ou não das contas. A importância do Conselho Fiscal não se limita à fiscalização do uso dos recursos. Seu parecer dá legitimidade à prestação de contas apresentada pela diretoria e o controle social que exerce é um fator inibidor de eventuais usos inadequados ou desvio de recursos. Sabendo da efetividade do controle, os administradores tenderão a utilizar corretamente o dinheiro e o patrimônio da associação.


Se o controle financeiro é importante para fazer a gestão dos recursos, a transparência é necessária para que associados e outros doadores se mantenham estimulados a contribuir.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A lógica dos projetos e o desenvolvimento comunitário

A elaboração de um projeto pode ir muito além do pedido de um financiamento e cabe aos consultores e técnicos de organizações que apoiam as associações comunitárias desvendar (tirar o véu, revelar) a sua linguagem técnica e a sua lógica para as lideranças e tornar este um momento importante para o desenvolvimento comunitário e de suas associações.


Isso se considerarmos a elaboração do projeto em seu ciclo de vida e não só o momento da elaboração. Nos dias 21 a 27 de junho realizamos o Módulo II da Oficina de Elaboração de Projetos no Parque Indígena Xingu. Promovido pelo Instituto Socioambiental – ISA e a Associação Terra Indígena Xingu – ATIX, reuniu 15 lideranças de 5 associações.

No Módulo I, conforme postagem feita em maio, trabalhamos com o Diagnóstico e o Planejamento, as duas primeiras fases do Ciclo de Vida de um projeto. Foi dada ênfase na participação comunitária para o levantamento e priorização dos problemas, o aprofundamento do conhecimento de suas causas e efeitos através de metodologias de Diagnóstico Rápido Participativo – DRP e também do planejamento, elaborado em uma matriz. Para a sua elaboração foi destacada a importância das conversas nas comunidades para que ficassem claros os objetivos, os resultados a serem alcançados, que fosse decidido em conjunto a melhor estratégia a ser adotada, o envolvimento de pessoas da comunidade para a execução das atividades e os parceiros com quem se poderia contar.


Neste contexto, a elaboração do projeto passa a ser a forma, muitas vezes necessária, de  viabilizar os recursos para executar uma estratégia de ação coletivamente pactuada e também de definir outros elementos importantes para a sua execução. A parte mais importante do projeto deixa de ser o orçamento e “as coisas” para comprar e passa a ser as atividades a serem realizadas, os objetivos e resultados a serem alcançados, o problema que se quer resolver ou diminuir.

Sendo assim, a elaboração do projeto na oficina começou pela Matriz de Planejamento, que já tinha sido feita na fase anterior: o problema identificado foi transformado no Objetivo Geral; as suas causas nos Objetivos Específicos que, uma vez alcançados, contribuem para o Objetivo Geral, tanto quanto as causas contribuem para a existência do problema; os Resultados Esperados são os compromissos que a associação assume em relação aos Objetivos Específicos, nem sempre atingidos durante o período de financiamento, identificados com os efeitos que o problema causa. Para cada Resultado Esperado é definido um indicador de que ele foi alcançado ou não. Para isso é necessário que atividades sejam realizadas e cada atividade necessita de recursos para a sua realização, que vão constar no orçamento.

A descrição do problema, suas causas e efeitos, levantados no diagnóstico, trazem as informações necessárias para o Contexto. De que maneira esse problema será resolvido ou diminuído com a execução do projeto é descrito na Justificativa. A comunidade deve estar organizada e preparada para a execução das atividades e a maneira como vão trabalhar juntos é descrita na Metodologia. Como vão distribuir essas atividades no tempo disponível é demonstrado no Cronograma. Por fim, a Apresentação, descreve o histórico da associação e a sua atuação anterior com relação ao problema abordado no projeto, sua capacidade gerencial e política, suas parcerias.

Isso feito passo a passo, com o tempo necessário para a elaboração em grupos, seguido de troca de experiências e comentários, foi muito produtivo.

Já tive a oportunidade, não só no Xingu, mas também em outros lugares, de observar como esse processo leva a um maior envolvimento e empoderamento das comunidades, uma maior aproximação da direção da associação com sua base, dando-lhe mais legitimidade e sentido ao “estar juntos” em uma organização. É um momento privilegiado que não deveria ser negligenciado ou desvalorizado como tem sido.

Claro que esta não é uma tarefa fácil. Se até os técnicos têm dificuldades para pensar tantas coisas previamente, ainda mais com uma lógica pré definida, pessoas com pouca familiaridade com a escrita, com “a lógica Cartesiana”, terão ainda mais. No entanto, há formas de tornar esse caminho mais fácil de ser trilhado e esta é a nossa missão. O que não podemos é “jogar a criança fora junto com a água do banho” e deixar de aproveitar a oportunidade de planejar com mais acuidade, de envolver as pessoas nesse processo, de usar os recursos com mais eficiência e de tornar as ações mais eficazes.

Chamou a atenção durante a leitura de alguns editais ao final da oficina, que os financiadores estão cada vez mais exigindo contrapartida das comunidades e parceiros, participação comunitária em todas as fases do projeto, desde o diagnóstico até a avaliação de sua execução e que os projetos não sejam assistencialistas, “dando coisas”, mas que eles contribuam para as iniciativas comunitárias e tenham continuidade depois do período de financiamento. O presidente de uma das associações me perguntou no início da oficina qual o tipo de projeto que poderia ser elaborado pelos diretores, sem conversar com a comunidade: “Aqueles que serão mal elaborados e não darão certo.”
 
Depoimentos dos participantes da oficina mostram que entenderam a mensagem e estão dispostos a fazer diferente:

Me mostrou como elaborar projeto, a levantar os problemas, aprendi a diagnosticar as necessidades. Assim é, talvez, mais rápido você elaborar o projeto.


Eu entendi melhor os passos de como elaborar um projeto e ficou muito claro que não se deve elaborar projeto sem a participação da comunidade.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Precisamos "colocar cupins" na estrutura de dependência

Recentemente voltei a pensar na fábula da águia e a galinha e na necessidade de estimularmos organizações soberanas, já publicadas neste blog.

Em uma dinâmica com lideranças e dirigentes de associações comunitárias em que poi proposto um desafio a ser vencido coletivamente, ficaram alguns instantes paralisados, esperando que alguém dissesse o que fazer. Notei que nas atividades, boa parte deles ficavam também esperando a orientação dos “assessores” de organizações presentes. Estes, zelosos em ajudar, orientavam as discussões, se enarregavam da sistematização e organizavam as apresentações. Com excesso de cuidados, sufocavam a criatividade e a iniciativa das lideranças.

Em outra ocasião, ouvi do presidente de uma associação com 6 anos de existência, criada para captar recursos de projetos, que os associados não se sentiam frustrados por não terem conseguido nenhum financiamento até aquele momento. “A gente, às vezes, consegue um equipamento com parceiros, combustível com a prefeitura, conserto de motor de popa, a associação faz delcaração para recebrem Bolsa Família, salário maternidade...” 

Mais dependentes do que autônomas e soberanas, essas comunidades e organizações se contentam em ser beneficiárias de recursos de organizações privadas e governamentais, apesar de seu grande potencial de recursos naturais, de pessoas e conhecimentos. Não enxergam a sua capacidade para a melhoria de vida das famílias nos seu próprios recursos, mas na “ajuda” de fora. Para muitas organizações interessa mais ter as comunidades beneficiárias de seus projetos “no galinheiro” do que se reconhecerem “como águias” e baterem asas em seus voos próprios. Há alguns anos, facilitando um processo de diagnóstico e planejamento participativos em uma comunidade, que quase não se manifestava, ouvi: “Moço, quando a gente tem um problema, a gente procura um político para ajudar. É a única coisa que a gente sabe fazer.”

Construída durante décadas e internalizada por muitas comunidades, essa dependência é hoje uma forte estrutura que dificulta o desenvolvimento comunitário autônomo e soberano.

Ao lado disso, penso nas atividades eventualmente desenvolvidas por alguns profissionais e organizações no sentido do empoderamento das comunidades, frente às práticas sistemáticas no sentido contrário e concluo que, se não são suficientes para derrubar de pronto a dependência em que as comunidades e suas organizações têm sido mantidas, fazem o trabalho silencioso dos cupins, que corroem a madeira por dentro até torná-la frágil.

Precisamos de consultores e técnicos, organizações e lideranças que sejam cupins, dispostos a corroer e derrubar a forte estrutura de dependência e liberar as comunidades para voarem livres como águias que são.

Já tive a alegria de publicar aqui alguns casos de organizações que apoiaram iniciativas verdadeiramente empoderadoras e comunidades que desenvolvem processos autônomos de desenvolvimento. O caminho existe e é possível de ser trilhado. Lembrando alguns trechos do “Guia Pés Descalços”, em publicação de janeiro de 2013:

No entanto, a situação está longe de ser desesperadora. Existem organizações e movimentos de soberania em todos os continentes resistindo a esta tendência, muitas vezes apoiados por financiadores e organizações sociais com uma abordagem de desenvolvimento diferenciada. O setor social precisa procurá-los e aprender com eles. Existem muitas iniciativas, programas e projetos que são muito promissores, desde que possam se ajustar ou se transformar no sentido de integrar uma abordagem mais organizacional.

Os profissionais de desenvolvimento, incluindo os financiadores, devem prestar mais atenção ao conceito de organização em si e também à prática de facilitar o desenvolvimento de organizações locais e de movimentos sociais autênticos e soberanos. Pode haver um crescente corpo de profissionais de desenvolvimento organizacional trazendo essa abordagem de desenvolvimento, mas acreditamos que isso precisa ser aprendido por mais gente e se tornar o foco da prática do setor de desenvolvimento social como um todo e não apenas em uma parte deste segmento.

É necessário olhar com calma para aquilo que está vivo nas comunidades, o que é autêntico, o que tem potencial, acompanhado de um profundo respeito pelo que é local e nativo e de uma prática sutil que possa dar um suporte bem pensado e cuidadoso onde for preciso. Isso também exige a presença de facilitadores e financiadores que estejam trabalhando em sua própria soberania, observando seus propósitos e valores derivados das necessidades e direitos das pessoas e organizações que eles escolheram apoiar.

Se você me der um peixe,
Você terá me alimentado por um dia.
Se você me ensinar a pescar,
Então você terá me alimentado
Até que o rio esteja contaminado
Ou sua margem tenha sido ocupada pelo desenvolvimento.
Mas se você me ensinar a me organizar,
Então, qualquer que seja o desafio,
Eu poderei me unir a meus pares
E, juntos,
Inventaremos nossa própria solução.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Mesmo sem associação, na Aldeia Furo Seco também fazem juntos

A Aldeia Furo Seco foi a nossa “porta” de entrada e saída para a Oficina sobre Associativismo com as lideranças Arara e Juruna na Volta Grande do Xingu, no Pará. Até ela chegamos de caminhonete e lá atravessamos de barco. Na chegada ficamos pouco tempo, apenas suficiente para carregar o barco. Na volta pudemos conversar com mais calma com o Ronaldo, cacique da aldeia e saber da recente história de Furo Seco.


Criada há dois anos, conta hoje com 8 famílias, em um total de 40 pessoas. Além de suas roças familiares, fazem também uma roça comunitária onde todos trabalham. Quando alguém não pode trabalhar no dia determinado paga uma diária para alguém trabalhar por ele, mas todos tem que colaborar com a produção, que serve tanto para o consumo das famílias quanto para gerar renda para as despesas coletivas.

Possuem também um fundo comunitário com o qual todos contribuem com o valor que puderem e mensalmente arrecada por volta de R$ 600,00 para investir na comunidade e cobrir despesas na cidade quando vão resolver alguma coisa, etc.


As casas, de madeira, foram construídas com o trabalho coletivo para fazer as vigas, caibros, ripas e tábuas com madeira tirada da mata e para a construção. Alguns outros materiais necessários foram doados por empresas e organizações. Assim também construíram o centro comunitário e uma casa de apoio para receber quem vai trabalhar com eles. A casa está mobiliada com doações recebidas. 
Também possuem um caminhão e um barco com motor.

Agora, estão planejando a construção da escola e do posto de saúde.

Estão se organizando para fundar uma associação, para passar o patrimônio para o nome dessa organização, facilitar parcerias e o acesso de recursos de projetos e doações.

Dissemos para o Ronaldo que a principal organização eles já têm, que é a comunitária, responsável por tudo o que conquistaram até agora. O espírito associativista está no dia a dia deles. A associação que pretendem fundar, com certeza será bem sucedida se eles continuarem nesse caminho, pensando juntos sobre os problemas da aldeia, as soluções e trabalhando juntos.