Cidadania também é para fazer juntos!

CIDADANIA TAMBÉM É PARA FAZER JUNTOS!

Associação é para fazer juntos. O título desta publicação, lançada pelo IEB - Instituto Internacional de Educação do Brasil, no início de dezembro de 2011, já exprime o que será tratado em seus capítulos: que a criação de uma associação deve ser resultado de um processo coletivo e sua atuação deve ser marcada também pela participação efetiva de seus associados.


É o resultado de 10 anos de trabalho com organizações comunitárias e regionais indígenas, quilombolas, de ribeirinhos, agricultores familiares e outros, aprofundando e atualizando o que já foi publicado anteriormente em Gestão de associações no dia-a-dia.

Este blog nasceu como um espaço para troca de conhecimentos e experiências de quem trabalha para o desenvolvimento de organizações comunitárias e outras.

A partir de 2018 passou a ser também um espaço para troca de ideias e experiências de fortalecimento da cidadania exercida no dia-a-dia, partilhando conhecimento e reflexões, produzindo e disseminando informações, participando de debates, dando sugestões, fazendo denúncias, estimulando a participação de mais pessoas na gestão das cidades onde vivem.

Quem se dispuser a publicar aqui suas reflexões e experiências pode enviar para jose.strabeli@gmail.com. Todas as postagens dos materiais enviados serão identificadas com o crédito de seus autores.

É estimulada a reprodução, publicação e uso dos materiais aqui publicados, desde que não seja para fins comerciais, bastando a citação da fonte.

José Strabeli




quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Curso do ISPN é replicado por participante em Laje, na Bahia

Enviado por
Núbia Santana de Jesus
Presidente da Associação dos Pequenos Agricultores Rurais do Deus Dará – Laje-BA
Participante do Curso de Captação de Projetos de Temática Ambiental/Fortalecimento Institucional


Amigos e Amigas do Instituto Sociedade População e Natureza - ISPN,

Saudades de Vocês,

Inicialmente meus votos de sinceros agradecimentos e muita gratidão pelo trabalho do ISPN, que graças a Deus tivemos a oportunidade de conhecer e aprender, diante de todo o conteúdo exposto durante o curso não foi possível aprender tudo, por questão de afinidade. Sempre tive uma vontade enorme de saber elaborar projetos sociais, tive oportunidade de participar de outras capacitações que sem duvidas foram fundamentais, porém o ISPN teve um toque especial, aprofundou na organização que representamos. Eu, na qualidade de representante, nunca tinha me atentado para questões tão simples como fazer a leitura do estatuto da associação, por exemplo, oportunidade de fazer um diagnóstico do diagnóstico que já havíamos feito. Aprendi que é muito fácil dizer que o problema é o outro quando às vezes somos nós mesmos, aprendi que problema se resolve resolvendo e não dizendo que vai resolver, aprendi que não se constrói uma organização do jeito que eu quero enquanto presidente, se faz do jeito que todos querem mesmo que demore um pouquinho para que todos entendam. Aprendi também que uma boa liderança não é aquele que sabe fazer tudo , mais aquele que motiva os outros a quererem aprender fazer também. Diante de tudo isso eu entendi que essa oportunidade não foi para mim, foi para a Associação do Deus Dará. Percebi ainda mais que associação não tem outro jeito, não é para ser de outro, e por mais que agente tente nunca conseguiremos fazer sozinhos, pois é feita para fazer juntos: Associação é para fazer juntos! Como bem disse o mestre Jose Strabeli.
 
Depois do curso já elaboramos alguns projetos, o livro Associação é para fazer juntos está sendo um aliado muito importante e, nos espaços onde tenho oportunidade de estar, levo e apresento aos companheiros, que ficam encantados com a metodologia.

Caros Colegas do ISPN, estou escrevendo para dizer à equipe que elaborou e coordenou esse projeto que valeu e está valendo a pena o investimento que foi feito no município de Laje – Bahia, Território do Vale do Jiquiríçá, através da Associação dos Pequenos Agricultores da Comunidade do Deus Dará. Tenho plena convicção que estou dando continuidade à proposta do ISPN sem nenhuma modéstia. No retorno do Curso apresentei a proposta e a metodologia do curso, apresentei todo o material e conseguimos articular vários parceiros para executar o resultado do conhecimento adquirido com o mestre José Strabeli, colegas de outras organizações, bem como toda equipe do ISPN, também para demonstração de todos os materiais repassados durante os módulos. Toda essa articulação foi positiva, deu e está dando certo, pois estamos desenvolvendo o projeto que conseguimos elaborar durante o curso. Tenho certeza que vocês vão ficar muito felizes ao ler essas pequenas palavras que são verdadeiras, vão ficar como eu estou nesse momento chorando enquanto escrevo por que estou muito feliz em saber que estou contribuindo com minha comunidade, sinto-me muita agraciada por Deus. É muito bom saber que fizemos algo de bom, simples, porém, bom. É muito bom a gente ouvir “Núbia, Deus te abençoe por ter buscado esse conhecimento e lembrar-se de trazer pra gente.” Não tem dinheiro que pague.


Como resultado de todo Investimento que o ISPN fez para Associação do Deus dará através da minha pessoa, está sendo retornado a todo município de Laje através do “Projeto Capacitação em Gestão para Associações do Município de Laje”. É um projeto que tem um pouco da metodologia do Curso ministrado pelo Strabeli e, inclusive, o nosso material base é o livro Associação é para fazer juntos. Entendi que um projeto é um sonho que pode transformar a realidade da comunidade quando executado corretamente, por isso não um projeto especificamente para Associação do Deus dará, mas para todas as demais associações do município que sonham juntas em ser uma organização organizada. Desse modo fizemos a multiplicação de conhecimentos para todos que quiseram provar dessa fonte de conhecimento tão contagiante.

O projeto é um curso de capacitação que tem objetivo de capacitar os diretores das associações do município, tem duração de 05 módulos presencias onde participam 03 representantes de cada associação durante dois dias, com a ajuda de parceiros conseguimos reproduzir o livro. Cada participante ganha um quite com caderno, lápis, caneta, borracha, blocos, camisa, classificador, caneca, bolsa e livro e alimentação. Somos 19 Associações e 50 pessoas.

É empolgante.  No primeiro modulo chorei de emoção quando vi as pessoas valorizando e dizendo o quanto é importante o trabalho que estamos fazendo. O nosso povo é tão carente de coisas muito simples, de projetos simples, de um olhar de uma palavra.

Gente, conseguimos tantos parceiros, tantos coisas boas fizemos, encaminhamento importantes como fazer documentos, temos outros projeto para ajudar a construir a sede das associações, enfim, são coisas simples que a gente aprende a fazer e simplesmente fazemos sem perceber que somos nós que estamos fazendo.

Ao ISPN, nosso muito obrigada. Temos que fazer juntos um projeto para vocês conhecerem nosso município, a nosso previsão de término é em maio. Será que durante esse período a gente consegue fazer essa articulação?

Será um prazer recebê-los, afinal de contas faz parte do projeto acompanhar os resultados.

Aguardamos vocês, juntamente com Strabeli. Falei tão bem dele rsrsr.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Como a associação recebe os novos funcionários?



Nos dias 06 a 08 de janeiro facilitei o treinamento da assistente administrativa da APITIKATXI, que vai se dedicar principalmente ao Projeto Construindo nossos PGTAs. Em uma postagem neste blog em novembro de 2013, relatei que em uma reunião preparatória foi elaborado coletivamente um Termo de Referência para receber currículos; uma comissão de seleção foi formada com o Cacique Geral, o presidente da associação e dois da equipe do Iepé. Foi bastante discutida a necessidade de definir bem o perfil profissional e fazer uma boa seleção, não cedendo à tentação de contratar alguém porque é parente ou amigo, para ter um funcionário realmente adequado para desenvolver bem as atividades. O resultado foi a seleção de uma pessoa com formação acadêmica e experiências compatíveis com a função, além de sensibilidade e gosto para trabalhar com povos indígenas, mostrando o acerto dos procedimentos adotados.

O passo seguinte foi pensar e executar cuidadosamente o treinamento antes de iniciar o seu trabalho. Partiu-se do princípio de que não bastam os conhecimentos e habilidades técnicas para a execução do trabalho, mas também ter claro como ele contribui para o conjunto das ações da organização e o cumprimento de sua missão.

Inicialmente foi exposto e fornecido materiais sobre os povos indígenas congregados pela APITIKATXI e outros povos indígenas envolvidos no projeto. Também foi relatado o histórico da fundação e as principais atividades desenvolvidas, além das principais organizações parceiras, governamentais e não governamentais, em especial o Iepé que contribuirá mais intensamente na execução desse projeto.

Foi feita uma apresentação e leitura cuidadosa do projeto para que a funcionária entendesse o contexto e importância de seu trabalho para a boa execução do mesmo. Foi aberto espaço para a solução das possíveis dúvidas.

O financiador do projeto possui um Manual de Operações Financeiras, que também foi lido e explicado, no qual consta detalhadamente como devem ser feitas as compras de produtos e contratação de serviços, os comprovantes de despesas considerados válidos, como organizar a documentação e fazer as prestações de contas. Foi orientada e treinou a realização de licitação para a compra de produtos e contratação de serviços.

Recebeu as orientações iniciais para utilizar o sistema fornecido pelo financiador para a realização e apresentação das prestações de contas. Com alguns comprovantes de despesas, simulou todas as fases de elaboração do relatório financeiro.

Por fim, em reunião com o presidente da associação, foram listadas todas as providências necessárias para a realização da primeira atividade do projeto. Foi sugerido a eles que façam sempre esse planejamento detalhado antes da realização de cada atividade, além de monitoramento durante a execução e avaliação ao final.

O treinamento foi avaliado como muito importante para dar as informações necessárias à nova funcionária, deixando-a mais segura para iniciar o seu trabalho e aumentando em muito as possibilidades para que ele seja bem sucedido.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Natal é a novidade que construímos a cada dia!

Eu acredito em Papai Noel que, como dizia para meus filhos quando deixavam de acreditar na figura mitológica, existe em cada pessoa que é generosa, que se importa com as outras, gosta delas, quer que vivam bem, dá presentes por carinho, quer vê-las felizes.

Eu acredito que Jesus nasceu em uma manjedoura, na periferia de Belém, porque Deus quis mostrar que, se havia algo de novo possível de ser construído, seria a partir dos pobres e não dos ricos e poderosos; que fazer o bem não é uma qualidade divina, mas humana e se fez homem para nos mostrar isso e para não dizermos que ele era bom porque era divino.

Por isso eu acredito que o Natal nós fazemos agora, a cada dia em que favorecemos a cidadania dos pobres. Pobres economicamente, mas ricos em relações humanas, em economia solidária, em sabedoria da cultura popular. Por isso eu acredito no desenvolvimento comunitário e de suas organizações.

Neste Natal, quero celebrar com todos aqueles que se juntaram, em 2013, em ações cotidianas de desenvolvimento comunitário, aqueles que não mantiveram avaramente para si os seus conhecimentos e práticas, mas partilharam para que o máximo de pessoas e comunidades pudesse ser favorecido por elas.

Quero celebrar com as pessoas que, em 2013, visualizaram as páginas deste blog mais de 7 mil vezes, a partir de 54 países, lendo, divulgando, comentando e expondo suas ideias e experiências de trabalho com comunidades.

Que o Natal continue acontecendo, que Jesus continue “nascendo de novo” nos atos de cada um que, como ele, traz boas notícias e boas novidades para o mundo em que vivemos, para termos assim um 2014 novo! Como ele disse: “Bem aventurados aqueles que têm boa vontade”!!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Como a execução de projetos pode fortalecer alianças e parcerias



Nos dias 27 a 29 de novembro, foi realizada em Alter do Chão, Santarém-PA, a Oficina de Lideranças Indígenas e Associações Parceiras para fortalecer a articulação dos representantes indígenas entre si e destes com as instituições parceiras convidadas, que vêm atuando na temática da Gestão Territorial e Ambiental junto às comunidades dessas TIs, tendo em vista a execução do projeto Construindo Nossos PGTAs: Mobilização e Diagnóstico Socioambiental nas TIs Parque Do Tumucumaque, Paru D’este, Trombetas/Mapuera e Nhamundá/Mapuera, de dezembro de 2013 a novembro de 2014.


Estiveram presentes diretores de 6 associações indígenas e caciques dos povos Tiryió. Kaxuyana, Txikuyana, Waiana, Apalai, Waiwai e Hixkariana, das 4 Terras Indígenas localizadas no Amapá, Pará e Amazonas, que participarão do projeto, além do Iepé Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, da Equipe de Conservação da Amazônia – ECAM, Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas – PDPI, que financia o projeto e da Fundação Nacional do Índio – FUNAI.

Além desse projeto ser uma excelente oportunidade para o desenvolvimento da Associação dos Povos Tiryió, Kaxuyana e Txikuyana – APTIKATXI, proponente do projeto, como já foi relatado aqui, vejo que é também uma oportunidade para o fortalecimento de alianças e parcerias dessa associação e dos povos que ela representa com outras organizações indígenas e indigenistas.


Após a abertura e apresentação dos participantes, o presidente da APITIKATXI fez uma apresentação do projeto para que todos conhecessem e entendessem bem seus objetivos, atividades e metodologia. Denise, coordenadora do Programa Tumucumaque do Iepé, explicou a importância dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental para os povos indígenas. Explicou também a metodologia, participativa, que será utilizada para a realização dos diagnósticos nas aldeias e da reunião dos caciques em cada região de abrangência do projeto. Disse também que cada organização parceira participará com a sua especialidade: antropólogos, gestores, cartógrafos, etc. Mostrando o mapa da região, lembrou das relações de parentesco e comerciais tradicionais entre os povos agora confinados em terras demarcadas. Demétrio, presidente da APITIKATXI, lembrou que a existência de terras demarcadas é uma coisa nova para os índios que, antes viviam livres como passarinhos em territórios não demarcados e ressaltou que este, além de outro projeto em execução, é um importante meio de reaproximação desses povos.

 Cada associação indígena envolvida com o projeto será responsável pela execução das atividades locais. Elas foram apresentadas e seus diretores, acompanhados dos caciques da área de abrangência de cada uma, refletiram e depois apresentaram quais são as providências que precisam tomar para organizar as atividades do projeto; se estão preparados para desenvolver essas atividades; quais são as dificuldades que enfrentarão e como essas dificuldades podem ser superadas. Foi agendada uma rodada de consultorias em desenvolvimento organizacional para colaborar com a organização de cada uma das associações para a execução das atividades.

Ao discutir sobre a contrapartida exigida pelo financiador do projeto e que a associação e as comunidades também precisarão contribuir com trabalho para a realização das atividades do projeto que, como foi falado por várias lideranças, é muito importante para pensar o futuro das terras indígenas para eles, seus filhos e netos, ficou claro que não se trata de um projeto assistencialista, mas de uma união de esforços para atingir objetivos. Para conversarem em suas aldeias, para estimular o máximo de participação das pessoas, inclusive de quem ajudará no diagnóstico, será barqueiro ou cozinheiro, foi sugerido que digam que há muitas pessoas e organizações dando sua contribuição para esse trabalho. Qual é a contribuição que cada aldeia dará?
Todos demonstraram satisfação com a proposta e foram para casa animados com o projeto. Um dos caciques disse: “Este projeto vai ser nosso dever daqui para frente. É para isso que as lideranças estão aqui. Também para não ter dúvidas. É nosso dever repassar para as outras lideranças o que foi discutido aqui. Vamos ter assembleia em dezembro e vamos aproveitar para falar sobre isso.” Outro falou que “A maior preocupação nossa é com a terra. Terra dá vida. Precisamos ajudar nossos netos a ficarem felizes no futuro. Não é só dinheiro que é importante. Estamos aqui, discutindo juntos para resolver nosso problema. Esse projeto é importante. Isso fortalece o nosso trabalho. Isso fortalece a nossa união.”

Apesar da elaboração do projeto ter sido com a participação apenas da APITIKATXI, diretores das outras associações e os caciques receberam informações qualificadas, falaram e questionaram livremente, esclareceram suas dúvidas, entenderam a importância do projeto para o futuro de seus povos e o assumiram como deles também. Entenderam que além de atingir seus objetivos diretos, o projeto ainda aproxima os povos envolvidos, agrega pessoas e organizações em parcerias em que não há o melhor ou o pior, mas cada um com a sua especialidade, cada um com o seu papel para executar o todo. Este aprendizado e fortalecimento certamente impactará em ações futuras.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Associações comunitárias também fazem Gestão da Informação?



Apesar do foco da oficina para as associações do Parque Indígena Xingu – PIX, no Mato Grosso, ser a administração financeira, o terceiro módulo, realizado nos dias 18 a 23 deste mês, no Diauarum, foi a elaboração de cartas, relatórios e atas, além do arquivo de documentos, físicos e digitais. Participaram 28 representantes de 8 associações.

Dado o relacionamento histórico dos índios e suas organizações com órgãos do governo, como a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Instituto Chico Mendes de Biodiversidade - ICMBio, secretarias de educação, saúde, entre outros, assimilaram o ofício como forma de correspondência. Foi esclarecido que ofício é uma correspondência oficial, utilizada apenas por órgãos governamentais. Pessoas jurídicas privadas como as associações, utilizam cartas para se comunicar com outras organizações privadas ou públicas.

Exercitaram primeiro a elaboração de carta pessoal, que não tem um formato padrão, usamos linguagem informal, na qual tratamos qualquer assunto, inclusive os íntimos. Em seguida elaboraram uma carta comercial, depois de terem tomado contato com seu formato padrão, linguagem formal, na qual tratamos apenas assuntos de trabalho. As cartas foram lidas e comentadas para corrigir eventuais deslizes de linguagem, formato e para garantir a clareza do que era exposto: um pedido, uma informação ou um convite.


Um relatório também tem formato livre, uma linguagem mais coloquial e nele podemos fornecer mais detalhes de uma reunião, encontro, assembleia, curso, etc. É uma forma muito importante de registrar o evento para o próprio participante, para informar as pessoas ausentes e ir construindo a memória das atividades realizadas pela associação ou em que um ou mais dos seus membros participou. Os relatórios parciais serão importante fonte para elaborar relatórios de atividades de projetos para os financiadores ou relatórios institucionais, divulgando as ações da associação para financiadores, parceiros e público em geral. Como exercício, fizeram o relatório da oficina, que também foi lido e comentado para aprimoramento. Refletimos que, quando alguém da associação faz uma oficina como esta, por exemplo, não faz relatório e não divulga para ninguém, o que foi aprendido fica só com ele. Com a elaboração e divulgação de relatórios, mais pessoas terão acesso a essas informações. Mesmo depois de anos, pessoas que venham a trabalhar na associação poderão ter acesso à sua história através desses documentos. É uma forma de acumular os conhecimentos e experiências da associação.  Quando esse conhecimento fica disperso entre várias pessoas acaba muitas vezes se perdendo quando elas deixam de trabalhar na associação, fazendo com que sempre se “comece do zero” quando troca diretoria, por exemplo. Elaborar, guardar e divulgar relatórios ajuda no desenvolvimento da associação.

Depois de comentados e corrigidos os relatórios, elaboraram uma ata, que é um registro formal, com formato, início e encerramento padrões, mais conciso, sem uso de parágrafo ou intervalos de espaço. É utilizada, por exemplo, para relatar assembleias e devem ser registradas em cartório, principalmente quando houver eleição de diretoria ou alteração do estatuto.

A elaboração de cartas, relatórios e atas, além de boletins e publicações são as formas mais comuns da associação produzir e disseminar informações.

Para conhecer melhor uma das técnicas e a importância do arquivamento de documentos, foi feita a leitura dialogada do capítulo 5 do livro Associação é para fazer juntos: Como guardar e conservar os documentos da associação. Foi comentada a importância da organização tanto dos documentos legais, trabalhistas e tributários da associação, relatórios de projetos, como também relatórios, publicações e outros materiais fornecidos em cursos, encontros, seminários, reuniões, entre outros eventos que normalmente participam. Isso vale tanto para arquivo físico (impresso) como para os arquivos digitais. É muito comum que os impressos fiquem em casas de diferentes diretores e lideranças. Os documentos digitais ficarem em diferentes computadores, inclusive notebooks pessoais. Em geral esses documentos não são centralizados pelo secretário ou outra pessoa da associação e não é raro que venham a se perder, levando consigo boa parte da história e da experiência da associação que acaba nunca se acumulando. Além de centralizar os documentos digitais para mantê-los organizados e disponíveis para todos que precisarem deles, é muito importante fazer uma cópia de segurança em CDs ou HD externo para garantir que os documentos não se percam em caso de algum problema com o computador.

É também nesses eventos, entre outras formas, que a associação coleta informações, criando um acervo importante para suas consultas sobre temas relacionados ao seu trabalho.

No exercício sobre arquivamento utilizamos uma caixa de papelão com documentos que estava numa sala onde é guardado o arquivo inativo de uma das associações participantes da oficina. O primeiro passo foi uma triagem dos documentos que interessava continuarem guardados e o descarte dos que não interessavam. Em seguida foi feita uma separação por tipo de documentos. Foram encontrados folders e publicações que deveriam ser distribuídos e que ficaram ali, esquecidos. Também foram encontrados documentos contábeis, que deveriam estar sob a guarda do tesoureiro, junto com os demais documentos de projetos e atividades. Outros documentos encontrados eram relatórios e publicações sobre diversos temas de interesse da associação. Depois de organizados em pastas por temas e envelopes plásticos por subtemas, refletimos que um arquivo bem organizado não só conserva mais os documentos e facilita o manuseio, como também dá uma idéia mais clara sobre os documentos que a associação tem, tornando-os disponíveis para consulta e utilização. A partir disso, foi repensado se aqueles materiais deveriam estar no arquivo inativo ou se deveriam ser deixados mais à mão de quem precisasse consultá-los.


Para manter o arquivo bem organizado é importante que uma pessoa seja responsável por ele. Tendo mais familiaridade com a forma como os documentos estão organizados, pode arquivar outros da mesma forma e encontrar facilmente qualquer documento que alguém precise. Daí a importância de escolher também pessoas com gosto, habilidade e disponibilidade para essa tarefa para ser secretário da associação.

Ao final, foi comentado que as grandes associações, governo e empresas chamam de Gestão da Informação a esse processo de produzir, coletar, processar, armazenar e disseminar informações. Para essas grandes organizações esse trabalho é mais complexo e precisa de especialistas, mas a resposta para a pergunta do título é: sim, as associações comunitárias também fazem gestão da informação. As informações são fundamentais para a associação desenvolver bem suas atividades, participar de forma qualificada das discussões do movimento social, de conselhos, reivindicar políticas públicas, formar novas lideranças e discutir nas comunidades sobre o que está acontecendo. Se ainda não fazem isso bem, em geral é porque não foram alertadas e nem preparadas para isso. Cabe às organizações apoiadoras oferecerem a oportunidade e certamente vão aprender, crescendo também neste importante aspecto do desenvolvimento organizacional.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Como a execução de projetos pode contribuir para o desenvolvimento organizacional



Já tratamos aqui como é limitador e equivocado pensar que as associações são criadas para conseguir dinheiro através de projetos. Projetos viabilizam recursos e recursos são meios para desenvolver atividades, necessárias para atingir objetivos. Por outro lado, já tratamos também como a elaboração de projetos pode contribuir para o desenvolvimento organizacional de associações, ao proporcionar oportunidade para refletir sobre seus objetivos, estratégias de trabalho, organização interna e relacionamento com as comunidades. Da mesma forma, a execução de projetos também tem uma grande contribuição a dar, dependendo de como ela é feita e da relação estabelecida com os parceiros.

Nesta semana, de 11 a 14 de novembro, estive reunido com diretores da Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Kaxuyana e Txikuyana – APITIKATXI, caciques e outras lideranças, além da equipe do Iepé Instituto de Pesquisa e Formação Indígena em Macapá, que me convidou para esse trabalho, para iniciar a organização da execução de um projeto liderado pela APITIKATXI, que envolve 4 Terras Indígenas e 7 povos, com suas 5 associações.

A execução do projeto “Construindo nossos PGTAs: Mobilização e Diagnóstico Socioambiental na TIs Parque do Tumucumaque, Paru d’Este, Trombetas/Mapuera e Nhamundá/Mapuera”, financiado pelo Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas – PEDPI, do Ministério do Meio Ambiente, é um desafio para a APITIKATXI que, nos seus 9 anos de existência, executou alguns projetos de forma intermitente; tem uma diretoria relativamente nova, não tem funcionários e tem contado com o apoio de parceiros, em especial o Iepé e Equipe de Conservação da Amazônia - ECAM para a sua manutenção e para realizar suas atividades quotidianas.

Inicialmente fizemos uma reunião com algumas pessoas do Iepé e diretores da APITIKATXI, para alinhamento da pauta. Nos outros três dias se juntaram a nós alguns caciques e lideranças.

A primeira atividade foi tornar o projeto conhecido por todos. Com calma, fazendo tradução para os caciques e interrompendo sempre que necessário para aprofundar a discussão, foi feita a leitura do projeto.

Esclarecemos as exigências do financiador para a execução técnica e financeira do projeto, destacando como seriam feitos os desembolsos, que os recursos só podem ser utilizados para despesas que constam no orçamento, a necessidade de fazer licitação e de ter comprovantes de despesas válidos contábil e legalmente.

Comprovando que o contador é também um assessor contábil, contamos com a presença da contadora da associação para esclarecer os procedimentos, encargos e benefícios que devem ser pagos para a contratação do assistente administrativo. Um Termo de Referência foi elaborado coletivamente para receber currículos; uma comissão de seleção foi formada com o Cacique Geral, o presidente da associação e dois da equipe do Iepé. Foi bastante discutida a necessidade de definir bem o perfil profissional e fazer uma boa seleção, não cedendo à tentação de contratar alguém porque é parente ou amigo, para ter um funcionário realmente adequado para desenvolver bem as atividades.

Um projeto sempre tem um impacto em uma associação. Foi feita a divisão de tarefas entre os presidente e o tesoureiro: quem faz a articulação com as organizações parceiras e demais associações indígenas, quem cuida da administração e supervisiona o trabalho do assistente, para que possam também continuar com as outras atividades da associação. Foram definidos o local, equipamentos e materiais necessários para o trabalho do assistente.

Foi preparada a próxima reunião, que contará com a presença também de diretores e lideranças das outras 4 associações indígenas envolvidas com o projeto e organizações parceiras, governamentais e não governamentais, para que o envolvimento delas seja também qualificado e para que a governança seja definida coletivamente.

Muitas vezes uma associação entra só com o nome em um projeto. Na verdade, quem escreveu, negociou com o financiador e irá coordenar a execução é uma organização “apoiadora”. Ao final, a associação tem apenas mais um projeto para incluir nas suas experiências. Resultado bem diferente é conseguido quando participa efetivamente de todas as fases de sua execução. É uma excelente oportunidade para amadurecimento. Nesta mesma reunião foi definido qual é o papel da APITIKATXI e qual é o papel dos parceiros e mesmo o meu como consultor.

O assistente administrativo, mesmo que tenha experiência nesse trabalho, precisará aprender, por exemplo, como se prepara a logística de uma reunião ou oficina com a APITIKATXI, com as associações indígenas e organizações parceiras. É diferente de outros lugares e organizações. Então, principalmente para a reunião de abertura, em fevereiro do ano que vem, vai contar com ajuda de quem já tem experiência, depois que for aprendendo pode ir fazendo sozinho. Vai pedir ajuda só quando precisar. Mesmo que já tenha feito prestação de contas de outros projetos, vai precisar aprender como fazer a prestação de contas deste projeto para o PDPI. Cada projeto e com cada financiador é diferente. Principalmente nas primeiras cotações de preços, compras, pagamentos e prestação de contas, vai ter alguém para fazer junto, para aprender. Depois vai fazendo sozinho. Vai ter alguém à disposição para tirar dúvidas ou ajudar quando for preciso. No final, talvez só seja necessário conferir o que já foi feito. Tanto a APITIKATXI como as demais associações vão contar com a minha assessoria em alguns momentos em que ela for necessária. Isso vai ser definido na próxima reunião.

Não precisar mais da organização parceira para tarefas administrativas, captação de recursos, entre outras, não significa que não precisa mais de parceria com ela. Significa que está deixando de depender e passando a trabalhar junto. Viabilizar recursos, projetos, fazer documentos, organizar atividades é “pegar na mão e ir ajudando a fazer as coisas, como os pais fazem com as crianças”. Parceiro não é como pai e mãe cuidando de filho. É como marido e mulher: são adultos, cada um sabe e pode fazer uma coisa diferente e, juntos, conseguem o que precisam e atingem seus objetivos. Esse é o grande aprendizado que a APITIKATXI pode ter com esse projeto: se organizar melhor, aprender a fazer as coisas, ganhar autonomia e ser um parceiro mais forte, inclusive para o Iepé. Vai ser muito bom para o Iepé ter uma associação indígena forte para trabalhar em parceria em muitas coisas que podem ser feitas aqui na região.

Concordando, o presidente da associação disse que acha muito importante aprender que devem depender menos dos outros: “Um pai que cuida do filho 10 anos, 20 anos, 30 anos, uma hora fica cansado e não quer cuidar mais. Por isso, precisamos ir levantando, andando devagar e, aos poucos, andar sozinhos”.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Índios do Xingu aprendem a usar planilhas eletrônicas para elaborar relatórios financeiros



Nos dias 21 a 26 de outubro, facilitei a segunda oficina de Administração Financeira para Associações do Parque Indígena Xingu, no Posto Indígena Wawi, com o apoio de Renato Mendonça e Maria Beatriz Monteiro, da equipe local do Instituto Socioambiental - ISA.

O uso de planilhas eletrônicas para a elaboração de relatórios financeiros não é novidade para algumas daquelas associações, mas em alguns casos dependiam da ajuda de assessores, principalmente para a formatação. Em várias ocasiões me disseram que queriam aprender como fazer as tabelas, inserir as fórmulas, etc. A oportunidade surgiu com essa oficina, promovida pela Associação Terra Indígena Xingu – ATIX e o ISA.

Da programação constava formatação da planilha, elaboração de Plano de Contas, lançamento de receitas e despesas, gestão de caixa e banco, conciliação bancária, leitura e interpretação do relatório.

Com 11 computadores disponíveis, 24 representantes de 9 associações se dividiram em grupos. Com auxílio de um projetor multimídia eram dados exemplos e orientações do que fariam em seguida. Durante as atividades foram orientados por mim, Bia e Renato, além do Tari, indígena que ajudei na capacitação há anos atrás, quando trabalhava na ATIX e que tem orientado vários outros.


Iniciaram pela formatação das grades para o resumo consolidado e as tabelas mensais para lançamento de receitas e despesas de caixa e banco separadamente. Em seguida inseriram fórmulas para totalização das receitas e despesas, puxar o saldo anterior do respectivo mês, calcular o saldo atual; no resumo, inseriram fórmulas para consolidar os lançamentos de cada rubrica e calcular a situação de caixa.

Aprenderam o que é conta ou rubrica e como fazer um Plano de Contas, utilizando códigos para viabilizar o funcionamento da planilha. Fizeram lançamentos com comprovantes de receitas e despesas de algumas associações presentes e conferiram, inserindo no resumo uma fórmula para somar o saldo de caixa e de banco de dezembro e subtrair o saldo atual do resumo. Nos casos em que o resultado não foi zero, foram conferir as fórmulas inseridas para corrigir.

Depois de terem feito isso uma vez, fizeram tudo novamente, sem orientação, para fixarem os conhecimentos adquiridos.

A conciliação bancária foi explicada e demonstrada para todos executando um exemplo com auxílio do projetor.

Por fim, fizemos uma análise do relatório financeiro de um projeto de uma das associações, analisando a execução de cada rubrica e a execução total do projeto, destacando que isso deve ser feito regularmente pela diretoria da associação para poderem tomar providências para refrear gastos excessivos, agilizar a execução de atividades, negociar o remanejamento de recursos remanescentes.

Foi uma experiência muito gratificante que, mais uma vez, comprovou que o conhecimento pode ser adquirido por todos, basta que se torne acessível. Os participantes saíram da oficina muito animados com as novas possibilidades da autonomia conquistada.